Da Greve em Geral
No dia 11 de Dezembro, saí de casa de manhã e dirigi-me ao meu escritório. Havia menos trânsito que de costume, mas pude verificar que as lojas estavam abertas, os cafés estavam abertos, os supermercados (encontro três pelo caminho) estavam abertos e à tarde verifiquei que o Corte Inglês não só estava abertíssimo, como estava realmente cheio de gente.
No meu escritório não faltou ninguém, salvo uma Colega que declarou que ficava em teletrabalho porque não tinha comboio de Sintra para Lisboa.
Nas fábricas e escritórios, consultórios e instalações variadas por esse país fora, hotéis, táxis e ubers, tanto quanto sei e pude constatar, ninguém fez greve.
No entanto uma boa parte do país parou. A razão de ser é muito simples: os sindicatos afectos sobretudo ao partido comunista, paralisaram os transportes, rodoviários, ferroviários, fluviais e metros e transportes urbanos em geral, impedindo a população trabalhadora de chegar aos seus locais de trabalho.
Os funcionários públicos pararam o que puderam parar nos hospitais e centros de saúde públicos, prejudicando centenas de milhares de pessoas, obviamente as mais necessitadas. Os funcionários públicos pararam o funcionamento (?) das escolas públicas prejudicando centenas de milhares de pais que de outra forma teriam ido trabalhar em vez de terem de ficar a guardar os filhos.
Os hospitais privados não viram a cor da greve, nem as escolas privadas a experimentaram.
No entanto, jornais de clara inclinação para esquerda titulavam no dia seguinte, em parangonas: «A greve geral existiu». Existiu, claro, em tudo o que é público. Em nada do que é privado, tirando a AutoEuropa cujos trabalhadores por mais privilegiados que sejam, continuam a comportar-se como se estivessem na Siderurgia Nacional ou na Lisnave nos anos setenta.
O paradoxo surpreendente destas greves gerais (todas em governos que não são de esquerda) é que são os trabalhadores mais privilegiados do país, os mais bem pagos, aqueles a quem menos se exige e mais segurança têm no emprego, os trabalhadores das coisas públicas, que fizeram greve, supostamente para proteger direitos que ninguém lhes põe em causa.
Os trabalhadores da função pública, os que menos fazem e produzem no país e são pagos por todos nós, os que nada sofrem com crises, nada sofreram com a troika, nunca são despedidos a menos que matem alguém (e mesmo assim…), para completar o ramalhete prolongaram a greve para sexta, 12 de Dezembro, adquirindo portanto um fim de semana de quatro dias às portas do Natal… muito cristãos são eles…
A greve é um direito dos trabalhadores indissociável de uma democracia que se preze. Tem um corolário: quem faz greve, não recebe os dias de greve. Na função pública isso é uma fantasia. Há dias um jornal titulava «guardas prisionais em greve há um ano, com salário por inteiro». Está tudo dito.
Uma greve puramente política com o intuito de ganhar com a greve o que se perdeu nas urnas, a que só recorrem os funcionários públicos, ou aparentados, é um acto de agressão contra todos os trabalhadores, sobretudo os que mais necessitam de transportes públicos, de poder dispor de serviços de saúde públicos, ou de ter uma escola que lhes ensine os filhos.
Essa greve não é em nome do direito dos trabalhadores, é contra os direitos dos trabalhadores. É um acto de agressão. Pura e simplesmente. Convém ter as ideias claras nesta matéria, para não haver confusões.
Bom Santo Natal a todos.





