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Ideias para um País Novo

Janeiro 19, 2026 . 17:30
Opinião: "Talvez que os portugueses tenham aprendido alguma coisa em todos estes anos e estejam agora mais disponíveis para avaliar as ideias e os comportamentos dos candidatos".

Quando há dez anos fui candidato à Presidência da República sabia perfeitamente que Marcelo Rebelo de Sousa seria eleito, razão de ter investido muito pouco na campanha, aproveitando apenas a ocasião para nos debates televisivos promover algumas das minhas convicções sobre os problemas da democracia portuguesa e para defender algumas ideias de mudança, ideias que os leitores deste jornal conhecem bem pelos textos aqui publicados ao longo dos últimos anos.
Todos sabíamos então, que Marcelo Rebelo de Sousa seria eleito, porque tal como os seus antecessores e vários primeiros-ministros – José Sócrates, António Costa, Luís Montenegro - eram habituais frequentadores das televisões e a maioria dos portugueses conhece principalmente o que se passa regularmente nos diversos canais de televisão e adora os seus artistas, independentemente das suas competências e qualidades.
Agora, antes de saber os resultados de domingo, existe a hipótese de o mais televisivo candidato, Marques Mendes, não ser eleito e de o menos habitual cliente das televisões, António José Seguro, passar à segunda volta e ter a possibilidade de ser o próximo Presidente da República, eleito apenas pelas suas qualidades, pelo seu percurso político e até pelo silêncio que manteve ao longo dos últimos dez anos. Convenhamos que não é pouca coisa, escolhido, tal como Cavaco Silva que ninguém verdadeiramente conhecia quando chegou a líder do PSD na Figueira da Foz, porventura porque Portugal se encontra numa encruzilhada que nos mostra a falência dos políticos mais presentes nos debates televisivos. Talvez que os portugueses tenham aprendido alguma coisa em todos estes anos e estejam agora mais disponíveis para avaliar as ideias e os comportamentos dos candidatos.
Talvez que os portugueses tenham finalmente compreendido o vazio do debate político em que muitos dos principais problemas nacionais que atrasam o desenvolvimento do País são ignorados, ou sobrevivem por entre os interesses contraditórios dos diferentes partidos. Tal como uma administração pública enorme sem visível direcção e sem mínimos de organização; um modelo de ensino que ignora e marginaliza metade das crianças portuguesas; um modelo económico ineficiente e profundamente ignorante; um sistema de saúde à deriva e uma justiça disfuncional. Questões que passam geralmente ao lado do debate político ou são tratadas de forma superficial e, não poucas vezes, com gritante incompetência.
Portugal vive uma encruzilhada sob a liderança de partidos políticos de sinal contrário, o que seria normal, mas que para nosso mal têm em comum uma profunda ignorância estratégica, a ausência de ideias claras sobre o futuro e um profundo desconhecimento dos factores que no contexto da localização portuguesa na União Europeia e no Atlântico, são elementos determinantes da construção de um novo modelo de desenvolvimento. Desde logo uma logística adaptada ao modelo económico mundialmente dominante de empresas integradoras e não propriamente produtoras; a valorização da nossa centralidade entre os dois maiores mercados mundiais da Europa e da América do Norte; um desenvolvimento industrial baseado em empresas de alguma dimensão e a recusa do excesso de pequenas empresas comerciais agora dominante; ponderação dos inconvenientes de uma economia dominada pelo turismo; financiamento privilegiado das creches e do pré-escolar, com instalações de elevada qualidade, alimentação, transporte e educadores licenciados; reforma eleitoral no sentido de permitir aos eleitores escolher directamente os seus deputados e a natural consequência de aproveitamento de todos os votos, independentemente da sua localização; profunda reforma e profissionalização da administração pública, com a escolha por concurso de directores gerais de carreira e a adopção das mais modernas tecnologias de informação e gestão. Há mais, mas por agora chega.

Janeiro 19, 2026 . 17:30

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