Final Four da Taça da Liga: muito impacto anunciado, mas quanto fica realmente em Leiria?
Foram anunciados 16,7 milhões de euros de impacto económico associados à Final Four da Taça da Liga em Leiria. O número impressiona e gera manchetes. Mas, passada a agitação dos dias de jogo, há duas perguntas que raramente acompanham estes anúncios e que importa fazer: como estamos a medir este impacto? E quanto ficou efetivamente em Leiria?
Comecemos pela primeira pergunta. Em economia, os números só fazem sentido quando o método é claro. Muitos estudos de impacto recorrem a estimativas de consumo induzido e a multiplicadores que tendem a inflacionar resultados. Na prática, confunde-se frequentemente métricas teóricas com o valor económico efetivamente gerado. Para quem olha para estes dados com rigor, esta distinção é essencial.
Os valores agora divulgados resultam de um estudo do IPAM, que utiliza um modelo de previsão económica inspirado em metodologias internacionais aplicadas à análise de grandes eventos desportivos. O impacto é estimado a partir de áreas como bilheteira, hotelaria, restauração e serviços, considerando efeitos diretos e indiretos. Ainda assim, não é publicamente conhecida informação decisiva para avaliar a fiabilidade do modelo, como a forma de estimar o consumo verdadeiramente adicional, o peso dos efeitos multiplicadores ou a distinção entre valor gerado localmente e receitas captadas por operadores externos. Sem esse detalhe, os números devem ser lidos com prudência.
Respondendo agora à segunda e mais importante questão: onde fica o dinheiro? Uma parte significativa da despesa associada a grandes eventos é captada por operadores externos, desde entidades nacionais a vendedores ambulantes que chegam à cidade apenas por alguns dias. Esse consumo é legítimo, mas raramente serve para reforçar o tecido económico local.
Convém ainda notar que as receitas de bilheteira da Final Four não ficam, por regra, na cidade anfitriã, sendo geridas pela Liga Portugal e distribuídas segundo critérios próprios da competição.
Existem hoje abordagens mais próximas da realidade. Projetos de inteligência territorial baseados em dados, desenvolvidos em cooperação entre entidades públicas e instituições académicas como a NOVA IMS, mostram que é possível apoiar decisões públicas com informação observável e comparável. A parceria da NOVA IMS com a Comunidade Intermunicipal do Oeste, através da plataforma Oeste Smart Region, é um exemplo dessa abordagem.
Neste contexto, o recurso a dados transacionais agregados, como a variação do uso de meios de pagamento eletrónicos em períodos comparáveis, permite avaliações mais fiáveis do que estimativas genéricas.
Importa também olhar para a cidade como ela foi vivida durante o evento. Ao longo dessa semana, Leiria enfrentou dificuldades claras em termos de mobilidade, estacionamento e acessos. Para muitos residentes e comerciantes, estes dias afastaram clientes habituais e, nalguns casos, obrigaram negócios a fechar temporariamente. Estes custos existem e quase nunca entram nas contas do impacto anunciado.
Nada disto significa rejeitar grandes eventos ou ignorar o seu valor simbólico. Significa apenas reconhecer que uma cidade que quer decidir melhor precisa de mais do que números sonantes. No fim, a pergunta essencial mantém-se: o que ganha efetivamente Leiria, para além da exposição mediática, e em que medida esse ganho não é maioritariamente captado por outros intervenientes associados ao evento?





