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Luisilda anseia pelo dia em que não lhe chova dentro de casa

Luisilda Duarte, de 72 anos, tem vivido dias de muita aflição ao ver a água da chuva entrar-lhe pela cozinha e pela sala

“Nunca vivi nada assim na vida”. As  palavras de Luisilda Duarte, de 72 anos, traduzem a  madrugada que a deixou desamparada, sem teto, e com a chuva a entrar-lhe pela cozinha e pela sala. Desde então, vive dias de sobressalto e muita aflição.

À porta de sua casa, em Ansião, contou-nos, com lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto, o sofrimento de ver a água da chuva invadir o interior da habitação sem nada conseguir fazer para a travar. Falava pausadamente, enquanto limpava as lágrimas vezes sem conta, dando lugar, muitas vezes, ao silêncio que dizia tanto quanto as suas palavras.

O vento forte provocado pela depressão Kristin, na madrugada do dia 28 de janeiro, causou estragos no telhado e, na sexta-feira, quando conversámos com Luisilda, ainda não havia uma solução definitiva à vista, não por falta de tentativa, mas porque as condições meteorológicas não estavam a dar tréguas e continuavam a dificultar as intervenções possíveis.

“Foi só mesmo o telhado”, resumiu, mas foi o suficiente para virar o seu dia a dia e as suas noites do avesso. As telhas voaram, a água da chuva cai livremente dentro de casa e com o vento persistente as lonas provisórias não resistem.

Duas cadelas fazem companhia a Luisilda que vive com as duas netas, mas que tiveram de se ausentar por uns dias.

O que pede é simples: “Queria que me tapassem aqueles buracos”. Mas até isso tem sido difícil. As condições climatéricas continuam a atrasar os trabalhos e, apesar das tentativas, o problema persiste.

Dentro da habitação, a chuva era contida com bacias espalhadas pelo chão e farrapos ensopados.

“Um dia atrás do outro”, responde quando questionada sobre como tem passado os seus dias.

A madrugada da tempestade ainda permanece bem viva na sua memória. Nunca, ao longo dos seus 72 anos, viveu algo semelhante. “Pensei que morria. As minhas netas também”, recordou, com a voz a falhar.

As netas, que nessa noite estavam consigo, partilharam o mesmo medo. “A mais nova dizia-me: “Ó ‘vó, vamos morrer aqui””.

Desde então, o descanso deixou de ser pleno. Dorme mal, acorda várias vezes durante a noite e mantém-se em permanente sobressalto sempre que o vento se intensifica ou a chuva teima em cair.

 

Visitas aliviam a dor

Apesar da fragilidade do momento, Luisilda Duarte tem sido diariamente acompanhada pe­la equipa do CLDS 5G (Contratos Locais de Desenvolvimento Social de 5.ª Geração) de Ansião e do município, que a acompanham desde o primeiro dia após a tempestade. O gesto simples de aparecer à sua porta faz a diferença. “Aliviam muito. Dão conforto”, garantiu.

André Santos, que integra a equipa do CLDS G5 de Ansião, acompanhou a nossa equipa a casa de Luisilda Duarte. Trata- -a carinhosamente por “princesa” e saudou-a com um a­braço apertado.

No terreno, a equipa tem encontrado situações particularmente vulneráveis. “Temo-nos deparado com situações mes­mo devastadoras. Famílias arruinadas, casas destruídas, histórias completamente eliminadas. Temo-nos deparado com sofrimento”, contou André Santos.

Desde o primeiro dia no terreno, a equipa do CLDS 5G tenta “fazer o melhor”, mas consideram que “nunca é o suficiente para conseguir amparar tanto sofrimento”. “Tentamos acompanhar e  encaminhar, tanto para os bombeiros como para a Proteção Civil, voluntários e empresas. O pessoal do estaleiro municipal também tem tentado fazer o melhor com os recursos que tem”, referiu.

Ainda assim, há casos em que a gravidade dos danos e as condições meteorológicas dificultam qualquer intervenção imediata. “O caso da Luisilda é particularmente complicado. Tem sido acompanhada desde o primeiro dia da tempestade e não lhe vamos virar as costas até a situação ficar resolvida”, assegurou.

Até lá, Luisilda Duarte agarra--se à esperança de que chegue, em breve, o dia em que possa voltar a fechar a porta sem receio de que a chuva lhe entre dentro de casa.

Em Ansião, a equipa de reportagem do Diário de Leiria constatou que muitos telhados continuam ainda cobertos apenas por lonas, numa tentativa provisória de proteção, enquanto a autarquia procura dar resposta aos inúmeros pedidos de ajuda que se acumulam no concelho.

Fevereiro 9, 2026 . 10:00

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