
Amor regressa aos poucos à normalidade, mas ‘chora’ parque de merendas “irreconhecível”
O Parque de Merendas de Amor é hoje um dos símbolos mais visíveis da violência do mau tempo que atingiu a região de Leiria. “Está irreconhecível. É um cenário muito triste”, descreve o presidente da Junta de Freguesia, Adriano Neto. O edificado resistiu, mas a queda de numerosas árvores deixou o espaço sem sombra e profundamente descaracterizado, refletindo o impacto generalizado da tempestade na freguesia.
A destruição no parque é apenas uma parte de um cenário mais vasto de prejuízos. Ao nível das telecomunicações, a situação continua crítica. “Não temos quase nada”, afirma o autarca. Já a eletricidade tem vindo a melhorar progressivamente, embora persistam muitas ruas e zonas sem luz devido a postes partidos e outras avarias. “Aquilo que sei é que as coisas têm melhorado, há muitas equipas no terreno e aos poucos vamos tendo luz”, acrescenta.
No setor empresarial, apesar de Amor não ter um tecido industrial muito vasto, há casos particularmente graves. Um dos principais produtores agropecuários da freguesia perdeu praticamente tudo. “Vai começar do zero outra vez”, relata Adriano Neto.
Ao nível habitacional, a Junta procurou apoiar as famílias com menos recursos, disponibilizando lonas, telhas e acompanhamento direto. “As casas das pessoas que não têm posses [financeiras] tentámos ajudar com lonas. As que têm posses têm de reconstruir, não há outra hipótese”, sublinha. Houve ainda apoio significativo de voluntários vindos de vários pontos do país, incluindo Aveiro, Braga e Algarve.
Também o património escolar sofreu danos significativos. No infantário da Coucinheira, o telhado desapareceu. As escolas básicas registaram estragos, mas a rápida intervenção de um empreiteiro local permitiu retomar as aulas poucos dias depois. O Colégio Dinis de Melo foi igualmente afetado, com a queda de pinheiros mansos, contando com o apoio da Base Aérea na reparação de telhados.
Durante os dias mais críticos, a sede da Junta viveu momentos de grande pressão. “Era um massacre autêntico. Tínhamos quatro funcionários e não tínhamos mãos a medir. Uns choravam, outros pediam isto ou aquilo. Foi uma aflição impensável”, recorda. A escassez de materiais, como lonas, obrigou a uma gestão permanente de recursos. “Vinham uns rolos hoje, outros amanhã. Depois acabavam-se e tínhamos de pedir mais, e cortá-las”, explica.
Já a resposta solidária foi expressiva, sobretudo na área alimentar. “Houve uma altura em que as pessoas começaram a pedir comida e tivemos muitas doações. Chegaram a vir camiões de França”, revela. Assim, foram organizados cabazes e distribuída alimentação, numa operação que envolveu voluntários e funcionários da autarquia. “Neste momento já está tudo mais calmo”, assinala.
No abastecimento de água, Amor foi das primeiras freguesias a recuperar, graças à existência de três furos estratégicos para o sistema de águas de Leiria. A instalação de geradores permitiu assegurar rapidamente o fornecimento.
Quanto ao futuro, Adriano Neto acredita na capacidade de recuperação da freguesia. “Reerguer Amor é possível com a ajuda de todos”, apontou.
A mensagem final é de apelo à união. “Temos de ter calma e paciência. Se todos colaborarmos será mais fácil reerguer a freguesia. Se andarmos às turras uns com os outros não vamos a lado nenhum”, disse. Enquanto a recuperação prossegue, o Parque de Merendas permanece como imagem marcante de uma tempestade que deixou cicatrizes profundas em Amor.







