Última Hora
Pub Dl Leiriakids 20260525
Pub Dl Ipcb Cursos 20260527
Pub

Uma nação marcada pela dor: Quatro anos de guerra “sem fim à vista”

Para além das vítimas mortais - “perdas que já não se recuperam” - Yuliya Hryhoryeva, do núcleo de Leiria da associação Spilka, lembra que há vidas destruídas, famílias completas desfeitas".

Quatro anos depois do início da invasão russa à Ucrânia, o sentimento dominante entre os ucranianos é de “angústia e revolta”. A afirmação é de Yuliya Hryhoryeva, do núcleo de Leiria da associação Spilka, que fala numa nação “profundamente marcada” e “abandonada”, dentro e fora das suas fronteiras.

“Um cidadão comum que não é militar, não é político, não tem poder militar nem político… o que pode sentir nestas situações? Quando não tem luz em casa, quando não pode preparar comida, nem fazer compras?”, questiona.

Para além das vítimas mortais - “perdas que já não se recuperam” - Yuliya lembra que há “muitas vítimas que não são mortais”. “Há vidas destruídas, famílias completas desfeitas. As situações ficaram marcadas, seja em adultos, seja em crianças, porque as crianças não têm uma infância normal, nesse cenário de guerra. Não podem ir à escola como as outras crianças aqui, por exemplo, em Portugal”.

“A nação toda ficou marcada, seja na linha da frente ou de outra parte da Ucrânia. Até nós, que estamos no estrangeiro, sentimos isso e ficamos marcados. Imagino como ficam eles, que estão lá”, lamentou.

Na comunidade ucraniana de Leiria, afirma, a guerra parece acontecer bem perto. “A vida não é fácil para ninguém. Cada um dos ucranianos que conheço tem alguém na guerra. Agora já não há ninguém que não tenha algum familiar na guerra e por isso temos ajudado. Cada um ajuda com o que pode”, salientou.

Ao contrário dos primeiros meses do conflito, quando se realizaram manifestações públicas com grande mobilização, o apoio tornou-se mais silencioso e individual. “Já não fazemos manifestações públicas em massa como no início. Cada um ajuda o seu próprio familiar e nós comunicamos sobre isso”, realçou.

Quanto ao número de refugiados que passaram pela região de Leiria e permaneceram, Yuliya Hryhoryeva admite que é difícil contabilizar. “As pessoas estão sempre em movimento. Houve quem viesse e depois, por não conseguir adaptar-se, foi para outro país. Houve quem regressasse à Ucrânia. É difícil dizer quantos ficaram”.

Muitos dos que escaparam à guerra partindo para outros países, continuam a viver com a esperança de regressar à Ucrânia. “Principalmente aqueles que não conseguem visto de residência. Estas pessoas vivem sempre com a esperança de um dia regressar a casa”, acrescentou.

A Associação dos Ucranianos em Portugal (Spilka) mantém dois núcleos mais estruturados, em Lisboa e no Porto, onde continuam a realizar-se manifestações e iniciativas públicas. Em Leiria, a realidade é diferente.

“Temos poucos membros e não temos capacidade para grandes iniciativas. Eu própria fui presidente do núcleo e, neste momento, a minha vida pessoal não permite dedicar-me como antes”.
Ainda assim, garante que o apoio à comunidade se mantém, dentro das possibilidades existentes.

Quatro anos depois, Yuliya Hryhoryeva não vê um desfecho próximo para o conflito. “Não tem fim à vista”, lamentou.

Para a responsável, a guerra só terminará quando houver uma mudança profunda na forma como a Rússia é encarada no plano internacional.

“Eu acho que esta guerra não acaba enquanto políticos não perceberam que regime russo não se pode tratar com regime político democrático. Para a Rússia, a Europa é fraca e eles sentem isso porque a Europa não é capaz de mostrar à Rússia que se consegue defender. Por isso, os russos fazem aquilo que fazem”, justificou.

Na sua perspetiva, enquanto a Europa e o mundo continuarem a tratar a Rússia “como um parceiro com quem se pode negociar diplomaticamente”, o conflito prolongar-se-á. “A Rússia sente-se capaz porque é um regime que dá tudo para a guerra. Não interessa o povo, não interessa nada.”

Apesar de viver em Leiria há mais de 20 anos, o seu coração nunca saiu da Ucrânia. Grande parte da família continua no país e a guerra passou a tornar-se uma dor irreparável. Em agosto de 2025, o primo, de 40 anos, morreu na linha da frente da Guerra, perto de Donetsk.

“Ele foi para a linha da frente e não regressou. Depois foi dado como morto. Foi muito doloroso para a nossa família”, partilha.

No fim, volta à palavra que mais vezes surge ao longo da conversa: angústia. “É angústia, é tristeza. Psicologicamente é muito difícil viver nesta incógnita permanente. Nunca sabemos o que nos espera amanhã”, rematou.

Parlamento português solidário com povo ucraniano nos quatros anos da agressão russa

O parlamento português afirmou hoje a sua solidariedade com o povo ucraniano, quando se assinalam quatro anos da invasão russa e pediu a “manutenção da unidade europeia e euro-atlântica na resposta à agressão”.

A posição foi aprovada por unanimidade pela comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, no seguimento de votos apresentados pelo Chega e pelo PS nesse sentido.

A Assembleia da República “condena de forma clara e inequívoca a invasão da Ucrânia pela Federação Russa e a continuação da agressão militar iniciada há quatro anos, reafirmando que a alteração de fronteiras pela força constitui uma violação grave do direito internacional e dos princípios da Carta das Nações Unidas”.

Além de condenar “todas as violações do direito internacional”, o parlamento pediu que os autores de crimes sejam responsabilizados.

Na iniciativa, os deputados portugueses transmitiram “solidariedade para com a Ucrânia e o seu povo”, homenagearam as vítimas da guerra e destacaram “a coragem, resiliência e determinação demonstradas na defesa da soberania, independência e liberdade”.

O voto apelou para a “manutenção da unidade europeia e euro-atlântica na resposta à agressão” e para o “empenho ativo de Portugal na consolidação da paz e na implementação de eventuais medidas que reforcem a estabilidade e a segurança europeias”.

O parlamento defendeu também “uma paz justa e duradoura, alcançada através de um processo negocial participado pelas autoridades ucranianas, com o envolvimento inequívoco da Europa, que garanta o pleno respeito pela soberania e integridade territorial da Ucrânia”.

A iniciativa reiterou ainda o apoio de Portugal à Ucrânia e saudou “o contributo do Estado português no plano diplomático, político, humanitário e militar”, apelando “à continuidade e reforço desse apoio”.

Fevereiro 24, 2026 . 20:15

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right