O regresso de Passos Coelho e a última oportunidade da direita
Depois de anos de afastamento voluntário da vida política ativa, Pedro Passos Coelho voltou a surgir no espaço público de forma gradual e calculada. Primeiro, como referência recorrente por terceiros insuspeitos de simpatia pessoal, de integridade pessoal e sobriedade de vida, em contraste com a generalidade da classe política activa. Mais recentemente, através de intervenções diretas que revelam não apenas atenção à atualidade, mas também uma leitura estruturada dos desafios que o país enfrenta.
O momento escolhido não é indiferente. O atual Governo da AD entra numa fase particularmente exigente, com margem de manobra política reduzida e sem capacidade visível para promover reformas estruturais. Encontra se pressionado à direita pelo Chega e à esquerda pelo PS, num contexto económico e social que tende a agravar se. A opção estratégica do “não é não”, assumida pelo PSD, acabou por se transformar numa autolimitação séria, ao restringir desde logo a possibilidade de soluções governativas ajustadas ao novo equilíbrio parlamentar.
Convém recordar que o PS não teve esse escrúpulo em 2015. Apesar da vitória eleitoral de Passos Coelho, aliou se à esquerda radical para impedir a continuidade de um ciclo reformista que, em apenas quatro anos, permitiu cumprir o memorando da troika, sair do resgate financeiro, reequilibrar as contas públicas e alcançar, pela primeira vez em décadas, um excedente na balança comercial.
É precisamente essa experiência que enquadra a leitura atual de Passos Coelho. As reformas estruturais de que Portugal necessita — e que uma parte significativa da esquerda rejeita por razões ideológicas — só são politicamente viáveis com uma base de apoio sólida e alargada à direita. Pela primeira vez desde o 25 de Abril, esse espaço político dispõe de uma maioria potencialmente suficiente para viabilizar inclusivamente uma revisão constitucional. Importa não esquecer que muitas das reformas mais profundas no passado foram travadas quer pelo Tribunal Constitucional, quer por limitações internas da própria coligação governativa.
Neste contexto, Passos Coelho assume com clareza a necessidade de um entendimento governativo que inclua o Chega, a Iniciativa Liberal e o CDS. Não como um exercício de aritmética política, mas como uma plataforma de governação que obrigue à definição clara do alcance, do ritmo e da profundidade das reformas a implementar.
A centralidade de André Ventura neste quadro não pode ser ignorada. Antigo militante do PSD, conseguiu mobilizar eleitorados descontentes à direita e à esquerda com uma eficácia que nenhum outro líder partidário demonstrou nas últimas décadas. Menosprezar esse facto é um erro de análise. Mantido fora de qualquer solução governativa, continuará a beneficiar da posição confortável de oposição a um governo confrontado com as inevitáveis dificuldades da ação política, reforçando a sua influência.
O que Passos Coelho propõe é, assim, mais do que um regresso pessoal: é a última oportunidade estratégica para o PSD. Uma plataforma de governação que una toda a direita democrática em torno de um programa reformista consistente, a executar ao longo de duas legislaturas — o tempo político que faltou quando liderou o país durante o período de ajustamento externo.
O eleitorado do PSD, e o que resta da base do CDS, dificilmente perdoará o desperdício de uma maioria histórica com capacidade para reformar estruturalmente o país. Passos Coelho identificou essa janela de oportunidade e apresentou um esboço de medidas que recolheu amplo consenso e forte aplauso no Instituto +Liberdade, abrangendo áreas críticas para o futuro económico, social e institucional de Portugal.
Resta saber se o seu partido estará à altura desse desafio — ou se preferirá, uma vez mais, deixar passar a oportunidade.





