Educação dos Comportamentos
Sete polícias estão acusados de actos violentos realizados na Esquadra do Rato em Lisboa contra alguns jovens imigrantes. As notícias nada dizem acerca do chefe da esquadra, ou sobre a sua responsabilidade nestes acontecimentos, mas deveriam dizer. Infelizmente, em Portugal e por força da desgraçada e permanente luta partidária em que vivemos, o vulgar é acusar os governos e os ministros na praça pública, sem cuidar de procurar os responsáveis directos. Porque a verdadeira responsabilidade em casos como este reside nas chefias directas, porque são estas que conhecem melhor os seus colaboradores e são quem melhor pode evitar muito do que errado acontece.
Um outro vício nacional é pensar casos com este isoladamente, aqui já é culpa dos governos, tentando encontrar soluções de forma igualmente isolada, caso a caso, quando quase sempre a raiz do problema é outra, razão por que, na maioria dos acontecimentos nada muda. Por exemplo, a violência policial não é muito diferente da violência doméstica, da violência nos campos de futebol, ou nas ruas, ou em geral toda a criminalidade, porque, antes de tudo, é uma questão da formação média dos portugueses, igual razão do nosso atraso entre as nações.
Não chegar a horas aos locais combinados, não é a mesma coisa que a violência numa esquadra da polícia, mas a raiz do problema é a mesma, tem a sua origem no facto de milhões de portugueses nascerem pobres e a sua formação na família e na escola não ser igual em todas as classes sociais. Como não me tenho cansado de escrever, as crianças portuguesas das famílias mais pobres chegam aos seis ou sete anos ao ensino oficial, na maioria dos casos, muito menos preparadas para vida do que as crianças das classes sociais mais favorecidas.
Enquanto as crianças com pais das classes sociais mais favorecidas têm livros em casa, frequentam melhores escolas, as melhores creches e o melhor pré-escolar, aprendem a nadar e muitas têm aulas de música e vão ao teatro. Muitas chegam ao ensino superior, enquanto para as crianças das famílias mais pobres, as creches e o pré-escolar ou não existe ou têm, frequentemente, funcionárias da autarquia em comissão de serviço.
Há anos que peço testes para conhecer as diferenças de formação das nossas crianças na sua entrada ao ensino obrigatório, porque estou certo de que existem enormes diferenças entre as diferentes classes sociais, mas ninguém se preocupa com isso. Os dirigentes dos diferentes governos são todos, no mínimo, licenciados e as suas preocupações e o financiamento vão para as universidades.
Adicionalmente, ando há anos a propor que em todo o nosso sistema de ensino, mas principalmente no pré-escolar, exista o que tenho chamado a formação dos comportamentos, um modelo de ensino que iniciei no centro de formação da empresa que dirigi com excelentes resultados na qualidade humana e profissional dos nossos colaboradores.
Em resumo, é possível evitar muita da violência e da criminalidade existente, como é possível evitar as clivagens sociais e a pobreza, tudo numa geração, através da generalização das creches e do pré-escolar de qualidade para todos. Para isso são necessários edifícios luxuosos, educadores qualificados, alimentação e transporte das crianças, transporte que permite disciplinar o acesso e os horários. Ou seja, é possível fazer numa geração o que, com alguma sorte, só acontecerá em quatro ou cinco gerações. Para isso é preciso garantir a todas as crianças pobres um meio de crescimento de elevada qualidade, meio próprio dos ricos, de tal forma que quando as crianças crescerem não queiram ser pobres.





