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De muitas promessas, silêncio e fé se fez o caminho até ao Santuário de Fátima

Nos últimos dias, milhares de peregrinos de todo o país voltaram a fazer-se à estrada rumo ao Santuário de Fátima para as celebrações de 12 e 13 de Maio. Pelo caminho, ficaram pés feridos, noites mal dormidas, mas também histórias de superação que ajudam a explicar porque continuam, ano após ano, a percorrer centenas de quilómetros até à Cova da Iria

Há quem caminhe para agradecer, quem procure força para continuar e quem encontre na peregrinação um raro momento para olhar para dentro. Carregando às costas uma imagem de Nossa Senhora com mais de 10 quilos, Nuno Figueiredo foi ontem um desses peregrinos. Movido por uma forte promessa pessoal, nem a esclerose múltipla o impediu de voltar a percorrer mais de 150 quilómetros, desde Besteiros, Tondela (Viseu) rumo ao Santuário de Fátima para a peregrinação internacional aniversária de 12 e 13 de Maio.

O peso da estrutura improvisada por si próprio marcava--lhe os ombros, as dores acumulavam-se nas pernas e o cansaço era evidente, mas havia algo que queria levar até ao destino: a promessa que levava no coração e a imagem de Nossa Senhora que decidiu carregar durante toda a caminhada.

“Concretizei algo muito difícil e queria fazer algo difícil também”, confessou, adiantando que um percurso como este “só se consegue mesmo com muita fé”.

Ao longo de todo o percurso, contou com o apoio constante de Idalina Lopes e Sérgio Ferreira, irmãos que seguiam lado a lado numa peregrinação igualmente marcada por histórias de superação. Para Sérgio Ferreira, esta peregrinação ganhou um significado ainda mais especial, depois de, há dois anos, ter estado em coma, entre a vida e a morte, devido a uma pancreatite.

Na altura, as hipóteses de voltar a fazer o caminho até Fátima pareciam reduzidas. Hoje, recuperado, regressou carregado de fé em com o agradecimento ‘cravado’ em cada quilómetro.

Também Idalina Lopes já conhecia bem o peso desta caminhada. As bolhas nos pés, as dores nas pernas e o desgaste acumulado acabam sempre por surgir, mas nunca chegam para travar a vontade de continuar.

Mais adiante, a equipa de reportagem do Diário de Leiria encontrou José Vieira, natural de Paredes, que seguia estrada fora de chapéu na cabeça e mochila às costas. Aos 64 anos, conhece bem o caminho até à Cova da Iria. Este ano cumpriu a décima peregrinação a Fátima. Poderiam ter sido mais, admitiu, não fosse um problema de saúde que o obrigou a parar durante dois anos. Assim que recuperou, voltou à estrada. “Venho pela fé. Mesmo com um problema no joelho, a fé ajuda a esquecer as dores”, salientou.

Com 180 quilómetros já percorridos, preparava-se para enfrentar os últimos 20 até ao santuário, movido pela mesma motivação que o faz regressar ano após ano.

 

Agradecer a Nossa Senhora

Não foi para cumprir promessas que o casal Hugo Rodrigues e Maria de Fátima se fez à estrada na quinta-feira. Naturais de Vila Nova de Gaia, partiram apenas com mochilas, tendas e o essencial para sobreviver durante vários dias longe de casa, sem qualquer carro de apoio. A vontade de agradecer a Nossa Senhora de Fátima falou mais alto. “Agradecemos, pedimos e voltamos a agradecer. Precisamos de paz no mundo, muita saúde e algum dinheiro”, afirmou Hugo Rodrigues.

Fazem esta peregrinação juntos de dois em dois anos e garantiram que o caminho lhes devolve algo que a rotina diária muitas vezes não permite: tempo. Tempo para pensar, conversar e olhar para a vida com outra calma. “Fizemos amizades, encontrámos muita gente e pensámos muito na vida”, partilhou Maria de Fátima, sublinhando que esta experiência acaba também por fortalecer a relação do casal e o crescimento pessoal de cada um.

 

Nossa Senhora dos Coletes é ponto de paragem

A equipa de reportagem do Diário de Leiria parou junto de um dos pontos mais simbólicos, sobretudo para peregrinos vindos do norte do país: a imagem de Nossa Senhora dos Coletes, como é conhecida, na aldeia de Saramago, na Caranguejeira, Leiria.

Ali, centenas de coletes refletores, lenços, t-shirts e fotografias permaneciam pendurados em sinal de agradecimento, esperança ou pedido.

No meio de largas dezenas de peregrinos, encontrámos o Grupo das Capelinhas, do Porto, que tinha acabado de chegar. Carlos Elias, Dionísio Brás e Arlindo Costa integravam o grupo de 29 pessoas, que seguia unido passo após passo.

Enquanto tiver “sangue nas veias” e “pernas”, Dionísio Brás garante que nunca deixará de ir a Fátima. Mesmo com “uma bolha ou outra” nos pés, diz que nada se sobrepõe à fé, à amizade e ao espírito de entreajuda que nasce ao longo do caminho.

Este ano, a peregrinação teve um significado ainda mais especial para Dionísio Brás, já que, com 69 anos, cumpria a caminhada até Fátima pela 22.ª vez.

As estruturas de apoio médico e alimentar acabam também por ser parte essencial desta jornada. É nelas que muitos peregrinos recuperam forças, tratam feridas ou encontram simplesmente um momento para descansar antes de continuar.

A pouco mais de sete quilómetros do Santuário de Fátima, em Santa Catarina da Serra, a Associação Baptista Ágape montou uma estrutura de apoio médico, alimentar e espiritual destinada aos peregrinos que seguem rumo às celebrações de 12 e 13 de Maio.

No local, voluntários e enfermeiras ajudavam quem chega já com sinais evidentes de desgaste físico acumulado ao longo de centenas de quilómetros. Fazem massagens, tratam bolhas e lesões rápidas, oferecem comida e água, mas também oferecem palavras de conforto a quem já segue movido mais pela fé do que pela força física.

“A ideia é dar um pouco de alento e um reforço físico e espiritual”, explicou ao nosso jornal Raquel Gordilho, enfermeira da associação, enquanto massajava o gémeo inflamado de Ana Paula, peregrina natural de Aveiro.

Pelo caminho de grande parte dos peregrinos ficaram pés feridos e noites mal dormidas, mas também histórias de superação, amizade e emoção que ajudam a explicar porque continuam, ano após ano, a percorrer centenas de quilómetros até à Cova da Iria.|

Maio 13, 2026 . 08:00

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