
Comunidade solidária sustenta trabalho da APAMG há mais de duas décadas
Na Marinha Grande, a proteção animal não se faz apenas de resgates, esterilizações ou campanhas de sensibilização. Faz-se, sobretudo, de uma comunidade que responde, que se mobiliza e que, ao longo dos anos, foi aprendendo a cuidar. Para Catarina Contente, presidente da Associação de Proteção de Animais da Marinha Grande (APAMG), é imprescindível associar o trabalho da associação do espírito solidário da comunidade.
“Nós conseguimos feitos na Marinha Grande, que se calhar noutros sítios não conseguiríamos com a mesma facilidade”, afirma a responsável. Embora reconheça que a associação recebe apoio dos concelhos vizinhos, como Alcobaça ou Leiria, sublinha que há algo de particular na cidade: “Nós somos o que somos, porque à nossa volta a Marinha Grande é uma terra solidária”. Este reconhecimento é sentido pela associação e por quem lá trabalha todos os dias. Catarina Contente conta ao nosso jornal que se há um animal em risco “as pessoas já nem ligam para as autoridades, é para nós que ligam diretamente, para a APAMG”.
A realidade, no entanto, nem sempre foi assim. Há mais de duas décadas, quando nasceu esta associação, o cenário era bem diferente, onde o abate semanal era prática comum no concelho.
“Faltava tudo”, recorda a responsável, que integra a associação desde a sua criação. Situações de negligências e de sofrimento animal eram muitas vezes ignoradas numa cidade sem resposta institucional eficaz. Foi neste contexto que um grupo de cidadãos decidiu agir, pôr mãos à obra, e criar a associação com o objetivo de combater aquilo que Catarina Contente descreve como “criminalidade”.
Atualmente, a APAMG desempenha um papel “fulcral e extremamente imprescindível” não só na Marinha Grande mas nos concelhos vizinhos. A responsável afirma que a associação desenvolve não só um trabalho de proteção animal mas também em termos da “saúde pública da região”.
A retirada de animais das ruas e estradas, a aposta na esterilização, e por sua vez a redução do parasitismo, contribuem diretamente para o controlo de doenças e para a segurança pública e rodoviária.
Apesar da existência de estruturas municipais com competências na área veterinária, Catarina Contente aponta limitações. “Em teoria, existe. Na prática, nem sempre funciona, e muitas vezes só em horário de expediente”, o que limita a ação da APAMG, sendo que várias ocorrências acontecem fora desse horário. A associação acaba, assim, por preencher lacunas nestes serviços, apoiando também famílias carenciadas ou desestruturadas. “Essas famílias sabem que podem contar connosco”, relata Catarina Contente.
Trabalho de proximidade com a população
Se há algo que marca profundamente o percurso da associação é a transformação da atitude coletiva dos munícipes. “Há 20 anos, se chegássemos a um espaço para resgatar algum animal, as pessoas riam e gozavam. Hoje em dia, as pessoas aplaudem, ajudam e agradecem”. E os exemplos multiplicam-se. A presidente da APAMG relata que, se antes uma operação nas estradas poderia gerar impaciências nos condutores, hoje acontece o contrário.
“As pessoas param os carros, fazem escolta ao animal e ajudam na recolha”, conta.
Esta proximidade que a associação desenvolveu e ganhou com a comunidade ao longo dos anos é fruto de uma relação de confiança, que tem sido construída através da educação e do contacto direto com os ‘bichinhos de quatro patas’. Com atividades dinamizadas com escolas e lares, a APAMG educa e os marinhenses passam “momentos agradáveis” com os animais, em ações que Catarina Contente considera a “educação da comunidade”.
O envolvimento da população revela-se ainda na capacidade de apoiar financeira e logisticamente a associação. Com despesas anuais que rondam, e por vezes ultrapassam, os 100 mil euros, a APAMG depende fortemente de doações e iniciativas solidárias.
“As pessoas unem-se para fazer angariações de fundos, de bens, para colmatar as nossas necessidades. Revela ainda que, graças ao trabalho voluntário que a associação recebe, mesmo sendo “pouco para as necessidades” da APAMG, é possível conquistar mais terreno, desenvolver mais ações e retirar mais animais das ruas. “Isso significa que nos reconhecem”, afirma. Para Catarina Contente, a evolução da Marinha Grande em matéria de proteção animal é evidente. “Sinto uma evolução muito grande da comunidade”, diz, destacando o carinho e a preocupação crescente com o bem-estar animal.
Ao fim de 22 anos, prefere falar de “trabalho” em vez de “luta”. Um trabalho que, garante, reflete-se na resposta quase imediata da população a situações de emergência. “Se houver um animal atropelado, eu sei que esse pedido de ajuda nos vai chegar”.
No final, a presidente da APAMG deixa uma palavra de agradecimento à comunidade: “Agradecemos à Marinha Grande pelo apoio incondicional ao longo destes 22 anos”. E reforça a ideia de que a proteção animal é, também, uma forma de construir uma cidade melhor. “Juntos continuaremos a intensificar o respeito e o bem-estar animal, contribuindo para o bem-estar da comunidade e para dignificar a Marinha Grande em matéria de cidadania”, afirma.







