Opinião: Dulce Pontes – Uma pouco “Lusitana Paixão”, uma maior “além-fronteiras…paixão”
Por vezes vemos melhor, quando olhamos de longe e temos um ponto de observação que nos permite analisar com o rigor e a “frieza” que a distância permite. Curiosamente foi com este parágrafo que iniciei o meu primeiro texto publicado neste jornal, há quase cinco anos.
E recupero estas palavras porque penso que as mesmas se adaptam ao nome hoje abordado neste comentário: Dulce Pontes. Ou talvez não, porque nem tudo é preto ou branco…
Penso que, para a maioria das pessoas em Portugal, à primeira referência ao nome da cantora, a associação ao tema "Lusitana Paixão", com o qual venceu em 1991 o Festival da Canção, é imediata. Curiosamente as marcas do tema são ainda hoje evidentes em várias gerações de cantores e candidatos a cantores…
Mas Dulce Pontes é muito maior que esta aparente dimensão nacional. Muito maior…
Mais do que no universo do fado, é no universo da “world music” que o seu nome é gigante. As mundialmente famosas salas Carneggie Hall de Nova Iorque e Royal Albert Hall em Londres são apenas dois dos exemplos maiores das salas mundiais que a receberam. Madrid foi a cidade onde deu mais concertos, a Europa e as suas grandes salas de concertos, conhecem-na profundamente. A sua “A canção do Mar” foi banda sonora de telenovelas no Brasil e de filmes em Hollywood (com Richard Gere).
Wayne Shorter, Andrea Bocelli, José Carreras, Maria João, Kepa Junquera, Jaques Morelenbaum. Cesária Évora, Caetano Veloso, Marisa Monte, Carlos Núñez, The Chieftains ou George Dalaras, são apenas alguns dos muitos nomes com os quais colaborou. Mas em matéria de colaborações, a verificada entre o grande maestro italiano Ennio Morricone e Dulce Pontes, deixaria marcas nas carreiras dos dois. Depois de colaborações esporádicas, em 2003 juntam-se para “Focus”, um álbum marcante, gravado em Roma, todo ele construído, escrito, escolhido, dirigido por Ennio Morricone para a voz, para a personalidade de Dulce Pontes. Depois apresentaram-se nas grandes salas mundiais e passaram por Lisboa (ainda algo discretamente) pelo Anfiteatro Keil do Amaral, em Lisboa, em 2004. Em 2019, com 90 anos, Ennio Morricone trouxe a Lisboa um dos Concertos Finais da "60 Years Music World Tour". Foi a sua despedida, com uma orquestra de mais de 150 músicos e a convidada especial… Dulce Pontes. Na altura escrevi que “Dulce foi Grande, muito grande, ao nível do momento que este concerto encerra. Aconteceu História na Altice Arena e quem lá esteve jamais esquecerá”.
Uma discografia regular, comprova a evolução, a riqueza cultural e musical de Dulce Pontes: Lusitana (1992), Lágrimas (1993), Brisa do Coração (1994), Caminhos (1996), O Primeiro Canto (1999), Focus (2003), O Coração Tem Três Portas (2006), Perfil (2022). E é a essa evolução que o mercado musical (e cultural) além-fronteiras está atento, requisitando a sua presença. Por cá, parece que os promotores de concertos andam um pouco distraídos, e o número de concertos de Dulce Pontes por estas paragens é reduzido. Dulce Pontes continua a cantar, a interpretar canções com alma e de forma sublime. Vê-la ao vivo ou ouvi-la é uma experiência inspiradora. Infelizmente rara por estas paragens.





