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Opinião "Para que contentor do lixo vai a Cultura? Embalagens? Lixo orgânico? Resíduos perigosos?"

Junho 25, 2026 . 17:00
Opinião de António Ramos: "Quase todos os que leem, quase todos os que ouvem música, tem o “livro da sua vida”, o “disco da sua vida”. E depois, de repente, haverá razões que a razão desconhece, eis que surgem no lixo livros e discos. Livros talvez menos, talvez, mas os discos talvez muito mais.…"

Podem ser discutidas as diferentes taxas de IVA sobre livros, discos ou espetáculos de teatro, cinema ou concertos, mas todos estarão de acordo quanto ao enquadramento destes produtos numa “coisa” chamada cultura. E ainda que, numa primeira leitura, o título deste texto possa parecer despropositado, não o é porque a realidade já se encarregou de o confirmar. Livros e discos são – com alguma frequência – colocados no lixo.
Peças diversas que, em determinada fase da vida de uma pessoa assumiram importância preponderante na sua formação enquanto ser humano, lhes permitiu adquirir um conhecimento da vida, da história, da humanidade, ou simplesmente lhe permitiu “viajar” por mundos ou épocas não acessíveis pelas mais variadas razões, viver sensações únicas transmitida pelos sons e pelas palavras emanados dos discos, discutir com amigos emoções que não são discutíveis, nem sempre razoáveis, nem sempre entendíveis por nós próprios em diferentes fases das nossas vidas. Quantos já se questionaram, “como foi possível há anos, eu gostar disto ou daquilo…”. Terá sido por isso que foi inventada a expressão “Guilty Pleasure”?
Quase todos os que leem, quase todos os que ouvem música, tem o “livro da sua vida”, o “disco da sua vida”. E depois, de repente, haverá razões que a razão desconhece, eis que surgem no lixo livros e discos. Livros talvez menos, talvez, mas os discos talvez muito mais.…
Quando nos anos 80 surgiram os primeiros CD´s, muitos apressaram-se a desfazer-se de todos os discos de vinil que tinham acumulado ao longo da vida, que tinham comprado, por vezes que enorme dificuldade e que agora estavam fora de moda.
Penso que existia na altura algum pudor em pura e simplesmente colocar discos de vinil no lixo, pelo que a opção mais politicamente correta, era oferecer aos amigos que ainda não os acompanhavam nessa ideia moderna de substituição de vinil por CD, mas antes, acumulavam as duas opções (incluo-me neste grupo). Dando um salto no tempo, veio a “morte” do CD com o nascimento das plataformas digitais e eis que os mais “modernos” se apressam a desfazer-se quer do vinil (que eventualmente tivesse ficado perdido num qualquer sótão familiar) e dos CD’s que, anos antes eram a obra-prima da humanidade.
Devo dizer que enriqueci bastante a minha coleção de discos com estas opções que… não entendo. E ainda entendo menos a opção (rápida) do lixo. Ficam aqui duas ou três histórias, que acabaram por estar na origem deste texto: há cerca de 2 anos, um casal (relativamente) jovem falava-me das suas obras em casa e das grandes mudanças e da quantidade de coisas que tinham ido para o lixo. Sem grande convicção minha, sugeri-lhes que, caso tivessem discos de vinil, eu estava recetivo a ficar com eles. Resposta pronta: “se tivesses dito mais cedo, pusemos muitas dezenas de discos, tudo no lixo…“
Não quis saber que tido de música era.
Há cerca de um ano, alguém me perguntou, convicto de que não aceitaria, se estava interessado em “alguns” CD’s. Obviamente - principalmente sabendo dos gostos musicais do proprietário – disse imediatamente que sim. Mesmo assim ainda veio a frase: se não quiseres vai tudo direto para o lixo. Eram mais de 200 discos, discografias completas dos maiores nomes da música do último meio século, trocados pelo espaço na nuvem, onde estariam todos armazenados…
Há dias um familiar residente no sul do país, ligou-me a dizer que tinham sido acabados de depositar junto ao contentor de lixo indiferenciado, vários sacos com discos, muitas dezenas de discos. E sem eu perguntar, logo referiu haver discos dos grandes nomes do jazz mundial (Miles Davis, Aretha Franklin), muitos discos de música portuguesa (Cristina Branco, Rodrigo Leão, José Afonso, entre outros) dos maiores nomes das últimas décadas, do pop rock mundial (Pink Floyd, Genesis). Para além de ficar satisfeito por saber que todo esse material viria parar às minhas mãos (consciente que já teria grande parte deles), fiquei chocado com a aparente leveza de deitar no lixo, tantos pedaços de cultura, tantos pedaços de emoções, tantos pedaços de uma vida…
Obviamente nunca conhecemos os dois lados das histórias, mas umas horas mais tarde chegou a “justificação”: “o melómano tinha morrido e a mulher quis desfazer-se de muitas tralhas”… não comentei. É que existem instituições, museus, colecionadores, lojas especializadas. Nem sempre será necessário ir pelo caminho mais fácil… o do lixo. Porque há memória na arte, na música, na cultura, nas pessoas… das pessoas. Penso eu.

Junho 25, 2026 . 17:00

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