Falar Verdade
Por vezes o primeiro-ministro faz-me lembrar aqueles vendedores de fatos que na minha juventude andavam de feira em feira a vender a melhor fazenda ao mais baixo preço. Apesar de muito jovem já sabia que alguma coisa estava errada na oferta e pensava que seria propaganda a que não valia a pena dar atenção. Agora surpreende-me que ninguém explique ao senhor primeiro-ministro os limites da credibilidade.
António Costa conseguiu o feito de enganar os portugueses durante oito anos, mas ele era oriundo da velha escola do PS, catedráticos de enroupar a verdade com o manto diáfano da fantasia e sempre com o ar mais sério. Ora Luís Montenegro tem ainda muito a aprender neste domínio, por qualquer razão ele mostra-se sempre sorridente e com o ar de quem não acredita muito no que está a dizer. Outras vezes abusa na dimensão da festa, por exemplo, quando garante que a economia portuguesa “faz corar de vergonha qualquer economia da União Europeia”. Uma pequena frase que faz corar de vergonha qualquer português que saiba fazer contas, Portugal tem agora 76,2% da riqueza média da EU por habitante. Assim, senhor primeiro-ministro, em seu próprio benefício, não exagere.
Presumo, contudo, que a coisa lhe está na massa do sangue, porque há dias anunciou com a devida pompa um Fundo Soberano, assim à moda da Noruega, país que não sabendo o que fazer ao dinheiro acumulado resultante da venda do petróleo inventou a ideia, com o objetivo de acautelar o futuro dos noruegueses. Ora eu não acredito que os portugueses pensem que o senhor primeiro-ministro lhes vai acautelar o futuro. Além de que para a coisa ter alguma credibilidade seria preciso que o governo tivesse pensado a sério no assunto e Luís Montenegro se tivesse dado ao trabalho de explicar de onde vem o dinheiro, o que são empresas estratégicas e onde estão, ora tudo isso não foi minimamente dito e no espaço mediático ficou principalmente a convicção de ter sido uma ideia lançada por algum ‘spin doctor’ avençado do governo. Aliás, já todos sabemos que desde há muito não há planeamento nos governos portugueses, pelo menos desde o antigo regime ou, com boa vontade, desde Cavaco Silva.
Desta forma não acredito que este governo e este primeiro-ministro possam ir longe e o mais provável é haver outra crise política no horizonte. Neste governo apenas três ministros, da Economia, da Educação e da Agricultura, aparentam ter ideias sobre o que andam a fazer e merecem algum respeito. Mas confesso que os restantes apenas tentam, com pouco sucesso diga-se, usar a comunicação social para proclamações que a realidade não confirma e, não poucas vezes, desmente. No extremo do palavreado vazio e inconsequente, temos o senhor ministro das Infraestruturas, um perigo para a economia e para as finanças nacionais, que o senhor primeiro-ministro deixa andar sem controlo, tragédia viva no futuro da ferrovia e das empresas exportadoras. Mais modesta, a senhora ministra do Ambiente já nos habituou a ser a porta-voz da APREN, da mesma forma que faz do ambiente uma religião.
Finalmente, gostaria de recordar ao governo que o turismo é um sector da economia cujos fluxos podem mudar a qualquer momento, o que numa economia com excesso de pequenas empresas comerciais que não exportam é um perigo. Trata-se de uma grande parte da nossa economia que produz sem capital, sem máquinas e sem tecnologia, quando na indústria existe maior produtividade e mais exportações, mas cuja dimensão é insuficiente em número de empresas. Que o primeiro-ministro não compreenda esta realidade simples a fale do nosso sucesso económico, quando estamos ainda muito longe dos outros países europeus da nossa dimensão e com pequenos mercados internos, países que têm mais empresas industriais e exportam mais. Uma recomendação: talvez seja tempo de em Portugal se começar a falar verdade aos portugueses.





