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Opinião: Pedrinho e a Escola que Temos

Abril 26, 2025 . 09:00
Opinião: Em disciplinas como matemática, onde o conhecimento é sequencial, a falta de bases torna impossível seguir em frente. E o mais grave? Não é um caso isolado. Não é um aluno, nem uma escola. É um problema nacional, estrutural, sistémico. Um erro que se repete em ciclos.

O Pedrinho chegou a minha casa a meio do primeiro semestre com uma negativa a matemática. Era o reflexo de um problema maior: a falta de bases. Não era desinteresse. Não era desleixo. Era simplesmente um aluno que, ano após ano, foi avançando sem consolidar os fundamentos. E agora, no oitavo ano, não conseguia acompanhar. Com frequência semanal, entre exercícios e dúvidas esclarecidas, fui vendo uma mudança: passou de 40% para 73%. E mais importante do que isso, passou a gostar de matemática. Sente orgulho nos resultados, entusiasmo nas resoluções e motivação para continuar a melhorar. Tudo isto porque alguém parou para o ouvir e o ajudou a caminhar ao seu ritmo.
Como é que um aluno com dificuldades tão visíveis chega ao oitavo ano? Como é que vai às aulas, vai ao apoio, e mesmo assim não aprende? A resposta está no sistema. Salas de aula cheias, professores a fazer o que podem, apoios que mais parecem tempos livres, e uma cultura que permite que os alunos transitem de ano mesmo sem estarem preparados. Quantos exemplos conhecemos de estudantes com 6 ou 7 negativas no segundo período que, inexplicavelmente, passam no final do ano? Isto não é sucesso educativo. É empurrar o problema, esperando que ele se resolva sozinho — e isso nunca acontece.
Em disciplinas como matemática, onde o conhecimento é sequencial, a falta de bases torna impossível seguir em frente. E o mais grave? Não é um caso isolado. Não é um aluno, nem uma escola. É um problema nacional, estrutural, sistémico. Um erro que se repete em ciclos.
Temos aulas de apoio onde se fazem TPCs ou se brinca no telemóvel. Temos professores sem tempo nem condições para acompanhar cada aluno como deveria ser. E temos, também, pais que acham que a escola é apenas um sítio para deixar os filhos durante o dia. A escola deve ensinar conteúdos, sim. Mas os valores, a disciplina, o respeito — isso começa em casa.
Sou da opinião que os professores devem ter mais autoridade, mas não podem ser autoritários. Deve haver equilíbrio. Se um aluno perturba a aula, deve sair. Mas não para vaguear nos corredores. Deve haver salas de estudo acompanhado, com professores que, mesmo fora da sua área, possam apoiar os alunos com dificuldades nos anos mais baixos. Há tantos professores a completar horário… será assim tão difícil aproveitá-los de forma útil?
Fala-se muito de educação inclusiva, de sucesso escolar, de metas curriculares. Mas esquece-se o essencial: ensinar é construir bases. E quando se falha aí, perde-se tudo o resto. Um aluno que falha nos primeiros anos dificilmente recupera. Desmotiva, afasta-se, desliga. E depois rotula-se o aluno como fraco. Quando, na verdade, foi o sistema que o deixou para trás.
Educar não é apenas ensinar matéria. É formar pessoas. É dar oportunidades reais de aprender. E isso começa por reconhecer que o ensino atual precisa de ser repensado. Com seriedade, com exigência, com humanidade. Com pais envolvidos, com professores respeitados e com alunos verdadeiramente acompanhados.
“Instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele.”
Mas isto sou eu.

Abril 26, 2025 . 09:00

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