
Festival nasce nas Fontes com o abraço da comunidade
O relógio marcava as 16h00 de quarta-feira e Paula Batista já prepara a primeira panela de caldo verde do dia. Afinal de contas, era o primeiro dia do festival Nascentes, que decorre até domingo, na aldeia das Fontes, na freguesia de Cortes, Leiria. Este caldo verde é apenas uma das várias refeições confecionadas na sua cozinha, e que serão vendidas a todos aqueles que visitem o festival Nascentes, à volta da nascente do rio Lis. Assim como dona Paula, os habitantes das Fontes disponibilizam ajuda, as suas casas e o seu amor à nascente para dar vida a este festival que tanto gostam e acolhem com paixão. O festival que “protege o verde, azul e todos os outros tons que encontram na natureza”, que conta com a sua quinta edição, vai decorre até domingo.
Este evento nasce com uma “conversa de café”, entre partilha de sonhos e projetos, com Gui Garrido, diretor-artístico e produtor deste festival e a direção da Associação Cultural e Recreativa da Nascente do Lis (ACRNL). Mais de 200 pessoas estão envolvidas na organização deste festival, entre habitantes da comunidade das Fontes, voluntários da ACRNL, a comitiva organizadora, e todos aqueles que tornam possível a realização deste evento, tendo em vista a preservação do local tão querido por todos.
Sandra Faustino, nascida e criada nas Fontes, é voluntária neste evento desde a terceira edição e afirma que o Nascentes “é magnifico e dignifica a aldeia”, e que “traz união entre as pessoas”. “Mesmo que durante o ano não confraternizemos tanto” nesta altura todos se juntam, confessa, considerando o festival um fator unificador entre os habitantes da aldeia.
A vice-presidente da Associação Cultural e Recreativa da Nascente do Lis, Paula Batista, diz ao nosso jornal que este projeto “ajudou os habitantes a olhar para este local de forma diferente” como “a autarquia nunca olhou para o potencial das Fontes”. Este festival é também uma ajuda para a associação, que tem uma banca onde vendem refeições aos festivaleiros, cujo lucro ali feito é revertido para a ACRNL.
Muita música, exposições, apresentação de documentários e petiscos levam à pequena aldeia das Fontes, turistas e habitantes da região que procuram um festival irreverente, que une os seus visitantes à comunidade local pelo respeito, carinho e cuidado por aquele lugar que é de todos. Um festival que alia a sustentabilidade e a arte, preza-se pela utilização de materiais reutilizáveis, sobras e desperdícios, e apoiando o comércio local.
Gui Garrido, diretor-artístico e produtor afirma que este é um festival “organizado por pessoas e para pessoas”, e que une a arte e a cultura como “ferramentas de transformação, mudança de território e de literacia emocional”.
Atividades como a ‘Jantarada d’Aldeia’ junta os habitantes da localidade, os visitantes e todos aqueles que ali queiram partilhar uma mesa, uma refeição, e provar as iguarias confecionadas com ingredientes que vêm das hortas de quem nas Fontes mora. Para um ambiente mais tranquilo, o ‘Discos e petiscos’ alia a boa gastronomia com muita música.
Este ano, o Nascentes conta com algumas estreias, como o documentário ‘Onde nasce o rio e morre o medo’, criação da produtora Casota Collective, que acompanhou, “com olhar atento e sensível”, os caminhos traçados pelo festival, “dando voz à aldeia, às pessoas e às experiências vividas”.
Em estreia vai acontecer Desabafar, levando desconhecidos a sentar-se à mesa e conversar. A organização antecipa que será “um tempo para abrandar, entre histórias, pensamentos e silêncios partilhados”, com “um copo de ‘abafado’”, típico da região, para brindar e deixar “que a vida aconteça”.
Do artista e ilustrador Another Angelo, vão estar espalhadas “mensagens de amor” pela aldeia. O artista, que esteve em residência artística na localidade, e construiu uma ode visual à aldeia das Fontes, que capta “o silêncio, a memória e os ritmos lentos do lugar” e daquilo que lá permanece, “mesmo quando ninguém está a olhar”.
Artistas como ‘Ligados às máquinas’ e ‘Carincur & João Pedro Fonseca + Coro das Fontes’ voltam à nascente mais um ano.
As atividades do Nascentes são todas gratuitas, à exceção da ‘Jantarada d’Aldeia’ e ‘Desabafar’, e sempre limitadas à lotação existente.
É o espírito de uma aldeia que se reinventa sem esquecer as suas raízes, que acolhe quem chega com um prato quente, um sorriso e uma história para partilhar. O festival Nascentes não é apenas um evento — é um gesto coletivo de cuidado e pertença, uma celebração da terra, da água e de quem a habita.
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