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Etnografia na Estremadura Portuguesa (II)

Agosto 23, 2025 . 14:00
Opinião de Adélio Amaro: "A imensa documentação sobre a história das localidades estremenhas é a base para se entender e estudar os aspetos sociais, culturais e económicos que fazem o pedestal etnográfico desta região".

No presente trabalho não se pretende descrever a história local dos respetivos lugares, nem fazer um confronto com as diversas teorias sobre o Folclore e a Etnografia. O que se ambiciona é extrair, dos imensos volumes e milhares de referências existentes, algumas notas e citações de índole etnográfica, que podem ajudar a desenvolver estudos mais profundos, com uma escrita simples, que deixa o princípio de uma base bibliográfica que poderá servir para suscitar a curiosidade sobre o Folclore e a Etnografia da Estremadura, em especial da Alta Estremadura, como é identificada nos dias de hoje, que se limita, segundo a opinião de uns, pelas extremidades do distrito de Leiria e concelho de Ourém (distrito de Santarém), e pela opinião de outros, “apenas faziam parte” da Alta Estremadura os concelhos de “Alcobaça, Batalha, Leiria, Marinha Grande, Nazaré, Ourém, Pombal e Porto de Mós”, como ficou vincado no “1.º Congresso para o Desenvolvimento de Leiria e Alta Estremadura” (1991, p. 7). Quatro anos mais tarde, o segundo congresso já defendia a Alta Estremadura como sendo o distrito de Leiria e o concelho de Ourém, patente na edição referente a este congresso (1995, p. 25).
Desta forma, ficam as primeiras notas bibliográficas do fim do século XIX e início do século XX, sublinhadas por Alberto Pimentel, período, sem ser estático, que a maioria dos grupos de folclore representam nas suas apresentações, assim como nas recolhas que têm vindo a efetuar nas últimas décadas.
A imensa documentação sobre a história das localidades estremenhas é a base para se entender e estudar os aspetos sociais, culturais e económicos que fazem o pedestal etnográfico desta região. Contudo, é crucial conhecer a história de cada localidade. É nessa história que se consegue beber a identidade local. Após um breve conhecimento é possível extrair pequenos aspetos que realçam os usos, os costumes e as tradições da população de uma determinada região.
A definição de “Alta Estremadura” surge, claramente, para se definir uma região que, não se afastando, se destaca, com algumas diferenças, da região da Estremadura Saloia e da região do Ribatejo, ambas da Província da Estremadura, até 1936.
Contudo, não são as fronteiras das Províncias que colocam os limites nos usos, costumes e tradições das diversas populações. Mesmo dentro da mesma Província essas diferenças existiam, tendo em conta as regiões mais serranas, interiores, litorais ou urbanas, assim como a movimentação de pessoas, com destaque para Peniche, principal entrada, por mar, do distrito de Leiria, não ignorando todas as localidades com estação de caminho de ferro, com realce para Valado dos Frades e Pombal. Essa movimentação acontecia, além da ida aos mercados e feiras, com a necessidade de procurar trabalho noutras localidades, como acontecia, por exemplo, no Sul do distrito de Leiria – Caldas da Rainha, Óbidos e Bombarral. Eram muitas as pessoas que desciam geograficamente para trabalharem na poda, na cava e na vindima, como salientou Leite Vasconcelos (1858-1941) no quinto volume da “Etnografia Portuguesa” (1982, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, p. 663):
“Em alguns lugares, nas Caldas da Rainha, por exemplo, há praças de malteses. Aí vão os donos das terras justá-los. O Autor viu chegar, em 29-III-920, a uma casa da Columbeira para onde tinham sido justos em bando de malteses que vinha de Alcobaça. Traziam enxada e um embrulho às costas, com a roupa de vestir e pães para toda a semana. O dono do campo tinha obrigação de lhes dar casa (palheiro, telheiro, etc.), água e lenha.”
A Alta Estremadura é identificada como uma região, dentro da Província da Estremadura, que tem um abraço tripulo entre a serra, o pinhal e o mar, como estava na base poética do Leiriense Afonso Lopes Vieira (1878-1946): “Onde a terra se acaba e o mar começa / a Estremadura está, / com o Verde Pino que em glória floreça, / mosteiros, castelos, tanta pátria ali há!, lembrando o Canto III de Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões (?-1580): Onde a terra se acaba e o mar começa…”.

 

Agosto 23, 2025 . 14:00

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