
Mulheres nazarenas são imagens vivas da ligação ao mar e à família
A Nazaré não é apenas palco das ondas gigantes e dos campeonatos de surf que projetam o Canhão da Nazaré para o mundo. A vila guarda em si uma herança cultural profunda, feita de tradições que resistem ao tempo e que continuam a dar identidade à comunidade.
As mulheres nazarenas são um dos símbolos mais reconhecidos: blusas rendadas e coloridas, sete saias rodadas, lenços na cabeça e sandálias pretas de verniz, sempre adornadas com fios de ouro, pulseiras e anéis. São uma imagem viva da ligação ao mar e à família, eternizada na escultura ‘Mãe Nazarena’, inaugurada em 2005 junto à Marginal, um tributo às esposas, mães e peixeiras que viram tantos homens partir para o mar, sem regresso.
Essas mulheres desempenharam também um papel fundamental na tradição do peixe seco, prática que nasceu da necessidade de preservar alimento para dias de escassez. Espécies como o carapau, a sardinha, o cação ou o polvo continuam a ser expostas ao sol no areal, tradição que hoje é preservada pelo Museu (Vivo) do Peixe Seco, espaço dedicado à memória da vida piscatória.
A pesca permanece como uma das principais atividades económicas da vila. Redes estendidas na praia, traineiras no porto e a venda do peixe fazem parte da paisagem quotidiana. Nos areais, é possível encontrar dez embarcações tradicionais, de cores vivas e proas curvas, herdeiras da influência fenícia. Entre elas, destaca-se o histórico barco salva-vidas, responsável por resgates que ficaram gravados na memória da comunidade.
A ligação da Nazaré ao mar é também memória e ritual. A Arte Xávega, outrora comum, é hoje recriada em maio, pela população, como forma de não deixar morrer um testemunho secular.
O areal da Nazaré é o ponto central da vila, do turismo e da vida da população. Todos os dias, centenas de visitantes percorrem a marginal, tiram fotografias junto aos barcos tradicionais e observam a secagem do peixe, uma prática que resiste ao tempo e que faz parte do património local. Ali, cruzam-se turistas em busca da experiência autêntica com moradores que mantêm viva a ligação ao mar. O espaço funciona como cartão de visita, concentrando não só atividades ligadas à pesca e às tradições, mas também eventos culturais e religiosos que reforçam a identidade da comunidade.
Mas a Nazaré não se esgota na praia. O Sítio, elevado sobre a falésia, é lugar de fé e de lenda. Foi ali que, segundo a tradição, Nossa Senhora interveio para salvar D. Fuas Roupinho de cair no abismo durante uma caçada, episódio imortalizado na Ermida da Memória. O culto mariano cresceu a tal ponto que levou D. Fernando a mandar construir, em 1377, o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré.







