Cenários autárquicos antes da tempestade eleitoral
Como a campanha eleitoral propriamente dita para as eleições autárquicas ainda não começou, ainda podemos apelar a alguma reflexão. Quando começar a campanha, surgem poucas condições para refletir com maior discernimento. Até porque, na minha opinião, as campanhas eleitorais em democracia nunca param. Se pararem, é mau sinal, de que os candidatos não estão preocupados em serem eleitos. Só em regimes alternativos é que isso não é uma preocupação.
E é de alternativas democráticas que vos quero falar, através de um pequeno teste de prospetiva. Independentemente do local onde vivem e votem, sugiro que façam o seguinte exercício. Imaginem como seria o governo dessa dita autarquia se cada um dos candidatos estivesse no poder, mesmo para os partidos mais pequenos, mesmo para as opções menos viáveis. Imaginem que quem está no poder seria substituído e quem teria a responsabilidade de governar seriam as outras opções. Fazer este exercício e imaginar todas as implicações seria uma boa forma de escolher. Imaginem poder simular isto e perceber como seria o efeito das decisões eleitorais que tomamos. Não temos acesso a estas soluções de apoio à tomada de decisão no poder local, embora se trabalhe para isso noutras áreas. Eu e outras pessoas trabalhamos nesse sentido para várias instituições e cenários.
Felizmente a nossa democracia permite combinações de opções, incluindo um papel relevante para as oposições. Agora imaginem que têm de considerar também esta opção, tendo em conta o resultado expectável das eleições. Torna-se um processo mais complexo e dado a imensas incertezas, pois se todos os eleitores fizerem isto, votamos em oposições e não em soluções de governo. Neste momento, numa altura em que as intenções de voto podem gerar uma grande variedade, importa ter isto em conta. Que tipo de governabilidade pretendemos?
Aquilo que tentei descrever anteriormente é apenas um reflexo da complexidade do que pode ser uma decisão eleitoral, mesmo no caso das eleições autárquicas. Relaciona-se com o problema de termos apenas um voto, pois sistemas alternativos poderiam ser implementados. Também um problema de escassez de medidas consultivas e deliberativas locais onde os cidadãos sejam chamados a votar, devidamente informados e apoiados. Falo de referendos locais e processos coletivos de criação e tomada de decisão.
Voltando à nossa realidade, não temos outra opção. O nosso voto único tem de servir para escolher quem queremos nos governos locais, ou participe no processo mais abrangente de governação. É pouco mas é o que temos.
Vão arriscar mudar com todas as implicações que isso tem? Vão manter quem governa e desperdiçar outras oportunidades que podem trazer novidade? Vão votar pelo contra, sabendo que isso nunca será uma solução de governação? Certezas são apenas as de que não existem decisões eleitorais em democracia sem implicações na vida das pessoas.





