Última Hora

Liberdade que Não se Compra

Novembro 19, 2025 . 16:30
Opinião de Samuel Cardoso: "Nos últimos meses ouvimos histórias que nos deixam desconfortáveis: plateias fabricadas, aplausos organizados, presenças “mobilizadas”. A liberdade não precisa de claque paga. A autenticidade não se aluga por hora. Quando a política troca verdade por espetáculo, todos perdemos — quem governa, porque deixa de escutar; e quem é governado, porque aprende que a mentira compensa".

Angola assinala cinquenta anos de independência. Meio século é tempo bastante para celebrar, mas também para perguntar o que fizemos com a liberdade conquistada. A independência é um ato político; a liberdade é um caminho moral. Uma decreta-se; a outra prova-se todos os dias, no modo como governamos, servimos e falamos verdade.
Chegou-me às mãos um texto forte, “Libertem os escravos — É Jubileu!”, que não fala de correntes de ferro, mas das prisões invisíveis: corrupção, mentira, medo, pobreza imposta e manipulação. É um grito que vale para Angola, para Portugal e para qualquer nação onde a liberdade se tornou aparência. Quando a verdade se vende e a consciência se cala, a independência fica pela metade.
Nos últimos meses ouvimos histórias que nos deixam desconfortáveis: plateias fabricadas, aplausos organizados, presenças “mobilizadas”. A liberdade não precisa de claque paga. A autenticidade não se aluga por hora. Quando a política troca verdade por espetáculo, todos perdemos — quem governa, porque deixa de escutar; e quem é governado, porque aprende que a mentira compensa.
Os cinquenta anos de independência não deviam ser apenas uma fotografia de época. Devem servir para um exame de consciência. Há mais escolas? Há mais hospitais? Há justiça para quem não tem nome? Os recursos da terra chegam, de forma limpa, a quem nela vive? A democracia não se mede pelos megafones, mas pela serenidade de um procedimento justo: contas certas, leis cumpridas, mérito reconhecido sem apadrinhamentos.
O Jubileu bíblico falava de restituição: terras devolvidas, dívidas revistas, escravos libertos. A ideia não é romântica; é profundamente prática. O que seria um Jubileu hoje? Restituir ao povo o que lhe pertence — transparência nas contas, liberdade de imprensa, fé vivida sem manipulação, mérito acima do compadrio. E, no plano pessoal, reatar vínculos, pedir perdão, corrigir rumos. Não há libertação coletiva sem conversão individual.
Há quem diga que tudo isto é ingenuidade. Ingénuo é acreditar que a mentira sustenta um país por muito tempo. Sem verdade, a confiança quebra-se; sem confiança, a economia definha; sem economia, a esperança morre. O que levanta um povo não é o grito do palanque, é a consistência do serviço. A política não é um palco de heróis, é uma oficina de gente comum que faz o que deve quando ninguém está a ver.
Também nós, deste lado, precisamos de humildade. Portugal gosta de dar lições, mas falha muitas vezes no essencial: justiça lenta, serviços públicos degradados, cultura de desculpa. Se exigimos verdade aos outros, cuidemos de a praticar em casa. A liberdade amadurece quando cada um responde pelo que faz e pelo que cala.
Cinquenta anos depois, o melhor gesto de celebração é simples: trocar propaganda por compromisso, ruído por escuta, favor por lei, influência por mérito. Lembrar que a liberdade não é o direito de mandar, é o dever de servir. Governar não é brilhar; é acertar contas, abrir portas, prestar contas. Porque a liberdade, quando é verdadeira, não precisa de aplausos — basta-lhe a consciência tranquila.
“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
Mas isto sou eu.

Novembro 19, 2025 . 16:30

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