EUA e as ideias erradas sobre eles e nós os portugueses
á trabalho para uma instituição dos Estados Unidos da América vai fazer agora dois anos, e escrevo este texto diretamente do outro lado do Atlântico. Continuo a morar em Leiria, por mais estranho que pareça. As viagens para este lado do oceano são esporádicas, mas, mesmo assim, suficientes para uma constante descoberta. Todos os dias interajo com norte americanos, mas é quando se está aqui que as diferenças saltam à vista.
A cultura norte americana chega-nos todos os dias a casa. Filmes, séries, música, programas de televisão, redes sociais, tecnologia, produtos de consumo de todo o tipo e muitas outras coisas que me estou a esquecer. Por isso, achamos que sabemos algo sobre este país e os seus habitantes. Mas, a realidade pode ser surpreendente. Existem diferenças muito grandes, na escala de tudo, nas cidades, na economia, na cultura, no modo de viver. Mas o que mais me surpreendeu foram as pessoas. Não esperava que os norte americanos fossem tão afáveis e simpáticos. Mas passo a explicar melhor.
Fiquei verdadeiramente surpreendido porque paira sobre nós portugueses algo que me parece ser cada vez mais um mito, ou uma realidade em mudança. Existe a ideia de que somos um povo aberto, que sabe receber, emocional e apaixonado. Continuo a achar que somos isso tudo em certas circunstâncias, mas agora vejo que os outros podem ser também, e quiçá, mais que nós mesmos. Encontrei nos EUA pessoas de uma simpatia incrível. Pessoas com quem me cruzo nas ruas, em qualquer local. Pessoas que param para ajudar e perguntar como estamos. Pessoas que não julgam o nosso nível de inglês, que começam a falar naturalmente e têm genuíno interesse em saber mais sobre os outros. Nem estou a falar das pessoas com quem interajo diariamente, pois nessas é normal. Estou a falar de desconhecidos com quem me vou cruzando, seja em que estado for.
Os norte americanos são exuberantes, mas no bom sentido do termo. E eu que achava que isso era algo mais típico dos povos latinos. Os norte americanos são das pessoas mais emocionais que conheci até hoje, expressando isso sem problemas. Transmitem entusiasmo e entusiasmam-nos. Esse foi um dos principais choques culturais que senti, o puro entusiasmo, em tudo. A facilidade em elogiar os outros. Um dos principais choques. Como português que sou, não sei lidar com o elogio. Temos uma constante tendência para nos minimizarmos. Sofremos, verdadeiramente, de complexo de inferioridade. Reparem, o meu próprio texto é uma prova disso. Reparem em mim, que estou a aqui a atacar umas das nossas supostas melhores características. Estou a relativizar a nossa natural simpatia enquanto povo, retirando coisas do seu contexto e a fazer generalizações que podem ser demasiado simplistas.
A interação com outras culturas e países é cada vez mais importante para os portugueses que vivem em Portugal. Ajuda-nos a fazer uma autoanalise. Não somos dos melhores nem piores, somos apenas diferentes. A nossa cultura não é superior, embora nos seja transmitido isso em paralelo com um intrínseco sentimento de culpa e saudade de algo que nem sabemos definir. Por vezes invocamos tradições que nem seguimos para nos opor a outros. Neste momento que em Portugal chegam pessoas de outras partes do mundo, seria bom repensarmos quem somos enquanto povo, pois nada é imutável. O queremos manter e como mudaremos, pois, nada jamais fica igual, aqui, ali e depois do agora. Teremos essa abertura?





