
Leiriense Carla Pais vence Prémio LeYa com ‘A sombra das árvores no inverno’
A escritora leiriense Carla Pais é a vencedora do Prémio LeYA de literatura, no valor de 50 mil euros, pelo romance ‘A sombra das árvores no inverno’, foi divulgado na quarta-feira.
No anúncio da obra vencedora, o presidente do júri, Manuel Alegre, destacou a elegância da escrita, referindo que a autora "traz, ao curso do enredo e ao trajeto íntimo e social das personagens, situações problemáticas e convulsas de candente atualidade na Europa, sobretudo decorrentes da imigração oriunda de África e Próximo Oriente".
Nascida em Leiria (Regueira de Pontes) em 1979, Carla Pais, que reside em Paris, já tem outros romances publicados, o último dos quais, ‘Um cão deitado à fossa’, recebeu o prémio Cidade de Almada 2018 e o Prémio SPA, para o melhor livro de ficção narrativa 2023.
Obra surgiu na sequência de crise de refugiados sírios
A escritora Carla Pais afirmou que o livro resultou da sua procura de respostas à crise dos refugiados sírios e de como eram vistos em França. “A temática do livro tem que ver com a crise dos refugiados da Síria, e toda a opinião pública que se gerou e que generalizou um bocadinho as coisas, que era tudo terrorista. Eu não conseguia aceitar esta opinião e obrigou-me a ir trabalhar sobre as questões, às quais eu precisava de responder”, disse à agência Lusa a escritora, residente em Paris há 13 anos.
Carla Pais é a segunda mulher a vencer o Prémio LeYa, ao qual concorreu com o pseudónimo de Aníbal Correia. “Acredito sempre que o trabalho do escritor, em algum momento, vai dar resultados, vai trazer os seus frutos, portanto esta obra não seria diferente; Não escrevo para prémios, mas se eles vierem são sempre bem-vindos”, afirmou.
A autora afirmou-se “surpresa” com esta distinção, que se junta a outras que já recebeu, nomeadamente o Prémio Francisco Rodrigues Lobo, em 2017, pelo livro de poesia ‘A Instrumentação do Fogo’, e os prémios Cidade de Almada, em 2018, e Melhor Livro de Ficção, da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2023, por ‘Um Cão Deitado à Fossa’.
Em 2018, foi finalista do Prémio Melhor Romance da Associação Portuguesa de Escritores, com a obra ‘Mea Culpa’.
Sobre ‘A Sombra das Árvores no Inverno’, a autora disse que se sentiu “legitimada” para escrever sobre o país que a acolhe há mais de uma década: “O livro fala de quando começaram os ataques terroristas aqui em França, em 2015, que foi um choque para o país, e, depois estávamos a assistir a determinadas questões que se iam levantando em relação a tudo isto”.
“Entre 2015 e 2018 há um caminho que se faz sobre o terrorismo em França, a crise dos refugiados que vêm da Síria e ao avanço do jihadismo naquele país, e somos confrontados, a Europa no geral e a França em particular, com um conjunto de coisas que é o que fazemos a toda esta gente que está a fugir da Síria, são questões que se levantavam e que me transtornavam muito e me davam muito sofrimento”, explicou a autora.
“As opiniões que ouvia à minha volta eram todas no sentido generalizado de ‘é tudo terroristas o que aí vem’. Não podem ser terroristas todos, e não podemos generalizar quando falamos de seres humanos, cada pessoa é uma pessoa e, no meio daquelas pessoas, vinham crianças, vinham mães, vinham pessoas”, acrescentou.
‘A Sombra das Árvores no Inverno’ deve ser publicado “nos primeiros meses do próximo ano”, disse à Lusa fonte do grupo editorial.
Candidaturas de 15 países
A esta 14.ª edição do Prémio LeYa apresentaram-se 1.460 originais, mais 337 do que no ano passado, tendo sido a edição mais concorrida de sempre, segundo o grupo editorial.
As candidaturas foram provenientes de 15 países, mais sete do que na edição anterior. O Brasil liderou as candidaturas com 933 originais, seguido de Portugal (416), sendo de Moçambique o terceiro maior número de concorrentes, com 31 originais apresentados. Abaixo das 30 candidaturas seguiram-se Angola, Alemanha, Cabo Verde, França, Bélgica, Espanha e S. Tomé e Príncipe, entre outros.
Além do autor de ‘Praça da Canção’, constituíram o júri José Carlos Seabra Pereira, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Isabel Lucas, jornalista e crítica literária, Lourenço do Rosário, ex-reitor da Universidade Politécnica de Maputo, Ana Paula Tavares, poeta e Prémio Camões deste ano, e Josélia Aguiar, jornalista e historiadora.
O Prémio LeYa foi criado em 2008, com “o objetivo de distinguir um romance inédito escrito em língua portuguesa, com o valor pecuniário de 50 mil euros, sendo o maior prémio literário para romances inéditos.
Portugal lidera a lista de vencedores, com oito autores, o mais recente, Nuno Duarte, no ano passado, com o romance ‘Pés de Barro’, seguindo-se o Brasil, com quatro autores, o terceiro é Moçambique com um único vencedor, João Paulo Borges Coelho, em 2009, com ‘O Olho de Hertzog’.








