
Livro documenta e retrata instalação das gárgulas da Torre do Tombo
A história e o processo de produção das oito gárgulas executadas em calcário das pedreiras de Porto de Mós, instaladas na sede dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo (Lisboa), e que constituem uma das obras referenciais da longa carreira do artista plástico alcobacense José Aurélio, está agora disponível em livro.
A obra, intitulada ‘Badames, Ponteiros e Bujardas: As Gárgulas da Torre do Tombo’, é a primeira lançada pelo LiDA - Laboratório de Investigação em Design e Artes, do Instituto Politécnico de Leiria (IPL), em colaboração com uma editora, permitindo levar às livrarias os resultados da investigação, já apresentada em Lisboa.
Com base em materiais de arquivo e entrevistas com pessoas envolvidas no processo, nomeadamente o autor das esculturas, o livro acompanha o percurso da obra artística, entre 1987 e 1990, desde a sua conceção até à sua realização, bem como os diferentes modos de apropriação que gerou.
Iniciado em 2021 pelo professor João Bonifácio Serra – nome “incontornável” do mundo das artes e da cultura, falecido em abril de 2023 –, no âmbito de uma investigação do LiDA do Politécnico de Leiria, o livro foi agora finalizado, graças ao desejo dos vários intervenientes no projeto e do artista José Aurélio em torná-lo realidade.
Para Renato Bispo, coordenador do LiDA e professor da Escola Superior de Artes e Design (ESAD) das Caldas da Rainha, a importância de concluir esta investigação consiste “na vontade de prestar uma homenagem ao nosso colega e amigo João Serra, que tinha o essencial do projeto concluído no momento do seu falecimento” e na “essência do projeto”.
“O LiDA tem vindo a desenvolver investigação sobre a história dos processos associados ao design e à arte. Consideramos que esta linha de investigação é essencial porque sustenta a identidade, a cultura e o próprio funcionamento do conhecimento no âmbito destas áreas”, sublinhou Renato Bispo, acrescentando que esta “investigação é uma de várias que se encontram em desenvolvimento sobre estas questões”.
“Esperamos que o lançamento deste livro seja o início de uma nova fase em que a investigação conduzida no LiDA tenha uma maior visibilidade fora dos circuitos da investigação, contribuindo para uma maior consciência pública sobre o papel das artes e do design enquanto formas de conhecimento e intervenção sociocultural”, concluiu Renato Bispo, citado numa nota de imprensa do Instituto Politécnico de Leiria.
Livro dá a conhecer técnicas e ferramentas utilizadas na obra
De acordo com o IPL, criando um diálogo com os textos dos vários autores que participam no livro, é apresentado um registo fotográfico que documenta a execução e instalação das gárgulas no edifício da Torre do Tombo.
Através deste registo visual é possível “perceber as técnicas e ferramentas utilizadas na concretização da obra, algumas das quais criadas pelo próprio artista, permitindo compreender não só os conhecimentos técnicos, mas também o contexto em que as gárgulas foram criadas, tanto na pedreira, como no estúdio do artista ou durante a sua instalação no edifício”, refere o IPL, na mesma nota informativa.
A Torre do Tombo foi a primeira instalação cultural decidida e construída pelo novo estado democrático português. Projetado em 1980/81 pelo arquiteto Arsénio Cordeiro, e selecionado através de um concurso público, o edifício começou a ser construído na Cidade Universitária de Lisboa em 1985, tendo sido inaugurado em 1990.
Em 1986, Arsénio Cordeiro propôs que o escultor José Aurélio concebesse e executasse oito gárgulas para concluir o sistema de drenagem das águas pluviais do edifício. Para além da sua função no sistema hidráulico da Torre do Tombo, as gárgulas assumiriam também um papel simbólico, quebrando a rigidez do edifício e revelando, de forma alegórica, ao exterior, os sinais do que se encontra no seu interior. O resultado foi uma obra artística singular e monumental, gerada numa relação dialógica com a arquitetura e o espaço público.
Esculpidas diretamente em calcário moca de Porto de Mós, cada uma das gárgulas tem dimensões de 2 x 2 x 2 metros e pesa cerca de 18 toneladas.








