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“As pessoas têm de estar mentalizadas que a nossa vida passa a ser outra”

Gonçalo Lopes mostra-se “motivado” e “confiante” pelo trabalho desenvolvido no terreno depois de a depressão Kristin ter varrido o concelho de Leiria na madrugada da passada quarta-feira

Em entrevista ao nosso jornal, a partir do posto de comando montado nos Bombeiros Sapadores de Leiria, o presidente da Câmara apela ao espírito de entreajuda da comunidade para fazer face aos dias muito difíceis que se seguem.

Como é que está o presidente?

Gonçalo Lopes

Estou motivado, confiante pelo nosso trabalho e pela nossa capacidade. Estou apreensivo também e solidário com as pessoas que estão a sofrer e que são muitas. Não fico descansado enquanto não tivermos a nossa normalidade.

Tenho a sensação de que vão ser dias muito difíceis que vão passar e não vou ficar descansado enquanto todas as pessoas do nosso concelho não tiverem eletricidade e água o mais rápido possível.

Estamos a fazer um esforço e pressão junto do Governo e da E-Redes para que a eletricidade chegue à casa das pessoas, até à última casa da última aldeia do concelho.

Isso é algo que me tem preocupado e sei o que estão a sofrer. O concelho é grande. Tive a noção desta desgraça desde o primeiro minuto.

No seio familiar, como é que tem conseguido gerir as coisas?

Tenho um filho em Lisboa, sempre preocupado, porque assiste às notícias.

Está ‘online’ comigo, vai dando mensagens de apoio.

O outro filho está com a minha ex-mulher e vive os problemas de quem não tem eletricidade e água. É algo que me preocupa também, mas sei que estão tranquilos.

A tranquilidade da família deixa-me também tranquilo para estar na linha da frente e ajudar os leirienses.

Gonçalo Lopes Entrevista 3

Teve prejuízos nos seus bens pessoais?

O meu problema principal foi a minha varanda. Não tenho telhado, vivo num prédio, num rés-do-chão, felizmente não tive problemas.

O meu carro ficou estacionado ao pé de uma árvore. Foram quase todas abaixo menos a minha.

Sinto-me abençoado por não ter sido um dos milhares de carros que não foi danificado.

Moro numa rua onde dois carros ficaram virados de pernas para o ar.

Que testemunho pode dar da madrugada de quarta-feira?

A madrugada de quarta-feira foi um dia aterrador. Ventos enormes, o bater das janelas.

Aquilo que as pessoas sentiram nas suas casas, eu próprio senti. Estava acordado.

Fiquei com a sensação, quando acalmou, que as coisas tinham voltado à normalidade, até ao momento seguinte, em que a pessoa é despertada com a cidade virada de pantanas e perceber que a dimensão do problema tinha sido muito maior do que podia imaginar durante a noite.

Gonçalo Lopes Entrevista 4

Como é que o presidente da Câmara se sente quando observa, à sua volta, pessoas já desesperadas, sem água, sem luz, e algumas delas ainda sem comunicações?

Há um conjunto de pessoas, geralmente as mais pobres, as mais idosas, que têm mais dificuldades, aquelas que vivem mais isoladas, são estas que tentamos acudir através dos nossos serviços sociais.

Uma primeira preocupação dos idosos que estão nos lares para tentar repor a eletricidade e esta é a área onde devemos estar mais sensíveis, todos.

A seguir ao Covid tornámo-nos mais egoístas, e neste momento vamos ter que nos tornar muito mais unidos.

Voltámos a ser mais solidários e a criar a entreajuda que houve durante o período do covid.

É esse o sinal, é essa a experiência. Quero apelar a todos. Temos de estar mais unidos.

Não haver um passar culpas, apontar o dedo. Todos temos que estar empenhados em resolver os problemas.

O que é importante é que as pessoas percebam que temos que estar unidos na resolução dos problemas, com alguma paciência, sabendo que muitos dos problemas, não estávamos à espera deles, e que são muito maiores do que alguma vez podíamos imaginar.

Estamos a falar de empresas destruídas, lares totalmente destruídos e isso é algo que nos deve preocupar porque são histórias de vida.

Essas histórias de vida são agora interrompidas. Há um retrocesso em tudo o que construímos, património que tínhamos construído individualmente, património coletivo.

Quando se destrói uma escola, equipamento público, um jardim com árvores com mais de 50 anos… as árvores que tínhamos plantado, já não as vou ver crescer. As pessoas têm de estar mentalizadas que a nossa vida passa a ser outra.

O ‘Reerguer Leiria’ é muito importante, é uma missão coletiva. Não é só o município, não são só as instituições públicas a reconstruir pavilhões desportivos de 20 e 30 anos.

Vamos ter que voltar a reconstruir, vamos ter que voltar a plantar, a ajudar empresas a desenvolverem a sua atividade.

Estamos na fase em que passaram quatro dias, provavelmente vamos ter mais dias nesta situação, mas já estou a pensar nos dias a seguir, ao momento em que todos tivermos eletricidade e água, vamos ter que arregaçar as mangas para reconstruir Leiria.

Como é que encara os próximos tempos?

Vão ser dias no comando distrital, a tentar energizar as pessoas que trabalham comigo, motivá-las, ter um pensamento assertivo, operacional, encontrar soluções inovadoras. Somos o primeiro concelho a distribuir materiais para construção. Fomos os primeiros concelhos a criar iniciativas de voluntariado.

‘Limpar Leiria’ foi um exemplo de como há muita gente no país que nos quer ajudar.

Temos recebidos muitas mensagens de outros pontos do país de pessoas que querem ajudar Leiria.

O país existe. Não pode é ser um país de faz de conta.

A E-Redes e o Governo têm que ser muito claros.

Não adianta dizer que está tudo bem quando sabemos que temos problemas muito graves.

Mais vale serem sinceros, frontais para estarmos preparados e sabermos como reagir a cada problema com dados objetivos.

Gonçalo Lopes Entrevista 2

Como é que encara as críticas de que não estão a fazer o suficiente?

Encaro com alguma compreensão. Quem está nestas funções tem que ter algum grau de empatia.

As pessoas estão desesperadas. Passados tantos dias, privadas daquilo que era a sua vida passada, têm que encontrar também culpados. Portanto, é natural que critiquem o meu desempenho, o desempenho da minha equipa, mas sinto-me de consciência tranquila.

Não sei o que posso fazer mais. Tenho dado o máximo nestes dias.

Irei continuar até que este problema seja resolvido e para criar condições para que se possa recuperar o mais rápido possível aquilo que andámos para trás.

Volto a dizer: tínhamos uma cidade, um concelho pujante, com turismo, atração de investimento, com a melhoria das condições na área da saúde, temos obras em curso.

Sei que hoje as minhas prioridades mudaram.

Que a nossa vida mudou.

A essas pessoas que o criticam, às pessoas desesperadas e a quem está no terreno, que palavras lhes gostaria de deixar?

Estou muito contente com a reação dos bombeiros.

Temos uma corporação que perdeu o telhado, uma bombeira que ficou ferida e mesmo assim continuou a prestar auxílio, temos pessoas que trabalham diretamente connosco há 24 horas, mas têm as suas casas a chover lá dentro, temos muita gente empenhada a dar de si aos outros.

Essas pessoas para nós têm muito valor.

Estou muito agradecido, não só aos colaboradores, vereadores, bombeiros, às empresas devastadas e, mesmo assim, quando lhes pedimos ajuda, vêm entregar material que não é prioridade para eles, mas é para os outros.

É o ânimo que recebemos.

Temos pessoas que vieram com crianças ajudar a limpar Leiria, famílias, um pai, um filho, e essas pessoas merecem a nossa admiração.

Fevereiro 2, 2026 . 10:50

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