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Às portas da “civilização” continuamos em modo de sobrevivência

Ainda há freguesias do concelho de Leiria que não têm energia elétrica, mais de uma semana depois da depressão Kristin ter devastado o território. Leia a crónica de um serão passado entre a luz das velas e a luz fornecida por um gerador.

São 22 horas e a cafetaria Donna Heleno, na rua mais central da Boa Vista está cheia, com gente que carrega os telemóveis, espreita e atualiza as redes sociais, pessoas que vêm trabalhar de portátil em punho ou que aproveitam para conversar, ver televisão e ‘matar’ a solidão e a angústia que se abate sobre a população há já 9 dias.

É que, apesar de estarmos a 10 minutos do centro da cidade de Leiria – ou, devo dizer, da capital de distrito, Leiria, por aqui, essa proximidade parece ficcional.

Desde a noite e madrugada do passado dia 28, em que a Boa Vista foi varrida e sacudida pela Kristin, que estamos sem luz e com as comunicações limitadas.

São 9 dias e 9 noites em que a noite aqui passou a ser muito mais escura. Se nos contassem que estaríamos este tempo todo - e sabe-se lá mais quanto, sem luz elétrica e sem redes de comunicação (a água regressou ao fim de quatro dias, embora ainda não seja potável), diríamos que era impossível. Mas cá estamos: a tomar banho na casa de familiares e amigos que já têm luz, a comprar comida não perecível, depois de mandarmos para o lixo o conteúdo das nossas arcas e congeladores, a chorar os frescos que deixaram de o ser e a comida que nos custou a comprar e tivemos que deitar fora. Vamos lavar roupa em máquinas automáticas nos lugares “civilizados” onde já há luz.

E estamos a viver “pendurados” nas notícias da rádio ou nas que conseguimos encontrar sempre que saímos desta “bolha” mergulhada à força em escuridão.

Os nossos idosos estão ainda mais isolados, mantemos um estado de vigília permanente em relação ao vento e às intempéries que não dão tréguas.

E acendemos velas, e candeeiros a pilhas e aquecedores a gás e andamos de lanterna na mão, para entrar em casa à noite – depois das 19h a escuridão é total. E é de lanterna na mão que vamos à casa de banho, que cozinhamos... Jantamos à luz de velas, mas há não romance neste gesto, só desespero.

Lembram-se do “apagão”? Multipliquem-no por muitos dias. Imaginem serem um idoso que tem como principal companhia a televisão e a internet. Imaginem ter um trabalho que depende de estarem ligados ao mundo. Imaginem ter uma empresa que está há 9 dias e 9 noites sem luz.

Sem ninguém nos dizer quando haverá uma solução para o nosso problema.

Na passada terça-feira, à tarde, um gerador foi instalado num PT da Boa Vista, servindo a farmácia e meia dúzia de casas e negócios na rua principal da Boa Vista. Desde esse momento, Inês Heleno, sócia-gerente da Donna Heleno, decidiu abrir a sua cafetaria a todos os que precisem de “luz” e internet, o maior número de horas possível. Deixou de encerrar às 19 horas e todos os dias tem fechado muito depois da meia-noite, com dezenas de pessoas a passarem no local e a aproveitar este oásis de luz.

Foi assim que se escreveu esta crónica, ao som do Sporting – AVS, ao som de conversas que tentam afastar o “peso” desta realidade e sem saber quando teremos direito a entrar de novo na “civilização”. E não, nenhum de nós acredita que está a ser feito tudo o que é possível pela população!

Fevereiro 6, 2026 . 17:30

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