
Fazer contas aos prejuízos depois do caos: empresários lutam para não desistir
Máquinas paradas, telhados arrancados, equipamentos destruídos e empresários confrontados, de um dia para o outro, com a incerteza total. Na zona industrial de Regueira de Pontes, em Leiria, a depressão Kristin deixou um rasto profundo de destruição no tecido empresarial.
A equipa de reportagem do Diário de Leiria entrou na Inca Glass, uma das poucas empresas em Portugal que se dedica ao fabrico manual de peças em vidro e que agora se encontra literalmente a céu aberto. O telhado em fibrocimento quase ruiu na totalidade, as máquinas ficaram à chuva, as mesas de trabalho, peças e matéria-prima foram danificadas e o forno – “o coração da fábrica” – foi forçado a parar.
É difícil andar pela fábrica sem pisar fibrocimento, uma vez que as telhas partidas estão espalhadas por grande parte das instalações.
Liliana Moreira e o marido, André Moreira, vivem com um aperto no coração, porque a atividade está em suspenso e não sabem quando poderão voltar a produzir.
“Temos um forno que, na teoria, nunca na vida podia ser desligado e está estes dias todos sem trabalho. Tem vidro lá dentro e não sabemos muito bem o que vai acontecer quando tentarmos ligar. Há muita coisa que ainda pode surgir quando tentarmos conseguir limpar isto tudo”, admitiu.
Já para não falar dos prejuízos que podem ascender a “um milhão de euros”. “Estamos a falar de um milhão de euros para cima. Temos peças partidas de clientes que já estavam prontas”, contou, acrescentando que outras ficaram destruídas ainda em fase de produção.
A empresa, que emprega mais de 20 pessoas, trabalha com exportação direta e indireta, mas toda a atividade e produção está parada, sem perspetiva de retoma a curto prazo. “Está tudo em suspenso. Estamos dependentes de muitas situações. Neste momento não temos água, luz, internet ou gás e não temos rigorosamente nada no sítio onde estamos. Tivemos que nos dirigir para fora de Leiria. Fomos até Caldas da Rainha e Óbidos e foi aí conseguimos dizer aos clientes o que se estava aqui a passar”, contou.
Apesar da resiliência, o desafio é enorme. “Vai ser mesmo muito difícil. Não tem sido fácil manter, porque isto são postos de trabalho diferenciados. Não é qualquer uma que faz este tipo de trabalho e, portanto, é muito complicado reerguer uma coisa que já não estava assim tão fácil de manter”, adiantou, confessando que já lhe passou pela cabeça “atirar a toalha ao chão”.
Sentimento semelhante viveu Raul Sousa, o responsável pela Equipsom, empresa dedicada à venda e montagem de equipamentos de multimédia, localizada a poucos metros dali.
Ainda visivelmente abalado, Raul Sousa admitiu ter pensado em desistir do negócio que construiu há 35 anos, assim que se deparou com a dimensão dos estragos causadas pela depressão Kristin.
“O primeiro impacto foi desistir. Depois descansamos e dormimos, ou não. Depois passa aquele choque inicial e começa-se a repensar com força de vontade”, contou o responsável.
Metade do telhado desapareceu com a força do vento e a parte administrativa da empresa também ficou completamente destruída, incluindo toda a área informática, enquanto que alguns equipamentos e materiais também não resistiram à tempestade, podendo resultar em prejuízos entre os “50 e os 60 mil euros”. “Com o telhado, serão mais uns 20 mil euros”, acrescentou.
Sem eletricidade, comunicações ou internet durante vários dias, a prioridade foi criar condições mínimas para retomar a atividade e motivar a equipa de colaboradores, o que não se revelou numa tarefa fácil. “Só hoje [quarta-feira] conseguimos voltar. Agora estamos a tentar a pouco e pouco comunicando o que se está a passar e a responder a alguns pedidos”, salientou Raul Sousa.
No meio do caos, o responsável destacou a solidariedade que teve a sorte de encontrar. “Todos se prontificaram a ajudar. Um rapaz andou aqui a arranjar o telhado e não pediu valor nenhum. Encontramos pessoas muito boas. De outras espera mais apoio, mas é nestas situações que se vê”, desabafou.








