Última Hora
Pub Dl Ipcb Cursos 20260527
Pub

Perdeu a casa onde morava com a família e escolheu continuar no terreno a ajudar a população

Mesmo depois de ver o telhado da sua casa e o da família voar com o vento, Tiago Gomes escolheu sair para o terreno e, desde então, tem trabalhado de sol a sol a ajudar a população

Quando o dia amanheceu após a passagem da fatídica depressão Kristin, Tiago Gomes e a família já não tinham para onde regressar. O telhado da habitação, em Maçãs de Dona Maria, freguesia do concelho de Alvaiázere, onde vivia com Vera Santos e os dois filhos foi arrancado pela força do vento durante aquela madrugada, deixando a família sem teto, sem tempo para salvar quase nada e sem saber quando – ou se – poderiam regressar.

O casal estava a recuperar a habitação, já antiga, gradualmente, conforme o tempo e os meios permitiam, mas a tempestade arruinou-lhes o sonho de ali continuarem uma vida a quatro e ver crescer os filhos, Moisés, de 7 anos, e Hugo, de 13.  “Aquela sempre foi a casa em que vivemos”, disse Vera Santos, cabisbaixa, ainda com dificuldade em falar do que foi obrigada a deixar para trás.

Ao recordarem aquela madrugada, em que ouviram e viram as chapas e o telhado voarem, a palavra que surge é apenas uma: medo, “muito medo”.

“Se eu tivesse um buraco debaixo da cama, tinha-me escondido”, recordou Tiago Gomes, que assim que tentou abrir a porta de casa, voltou a fechá-la de imediato. “O vento puxava tudo para fora”, contou.

Depois do vento, veio a chuva. Com a casa completamente exposta, a água entrou sem obstáculos, degradou o pladur e alguns dos eletrodomésticos “foram à vida”. “Ficámos sem teto, sem pladur. Chovia dentro de casa”, relatou Vera Santos.

Desde esse dia, Tiago Gomes ainda não conseguiu “parar” para voltar a casa, nem para ver os estragos ou avaliar a dimensão dos prejuízos, isto, porque tem passado dias consecutivos no terreno a prestar apoio à população.

Madeireiro de profissão, saiu de casa naquele dia por volta das seis da manhã, como faria num dia normal, e encontrou um território irreconhecível, devastado pela força do vento.

Ainda assim, não perdeu tempo em colocar mãos à obra, ajudando a desobstruir estradas e acessos, a remover árvores de grande porte caídas sobre habitações e vias de circulação e a realizar trabalhos em altura, numa vila onde os sinais da tempestade continuam bem visíveis.

Apesar de ele e a sua família terem sido vítimas da tempestade, Tiago Gomes mantém-se no terreno, até porque, garantiu, o trabalho que tem feito continua sem prazo para terminar. “E quando é que ele acabará? Nem daqui a dois meses”.

O cansaço é visível e a preocupação de quem não sabe o que vem a seguir está estampada no rosto deste casal, confrontado diariamente com a incerteza do futuro, sobretudo porque não tem esperança de poder regressar à casa onde vivia. “Não sabemos como vai ser daqui para a frente. Acho que ninguém sabe”, sublinhou Vera Santos.

Atualmente, a família encontra-se alojada no Pavilhão Municipal de Alvaiázere, por onde, desde a tempestade, já passaram dezenas de famílias.

Vera Santos não esconde que a adaptação tem sido difícil, sobretudo para as crianças que têm estado “um pouco agitadas”. “Não tem sido fácil, principalmente para as crianças, porque não se sabe o que vai acontecer a partir de agora”, admitiu, explicando que têm passado o tempo entretidas com jogos ou pinturas.

Apesar de ser “difícil lidar” com a situação, Tiago e Vera sentem-se “muito bem acolhidos” no pavilhão municipal, onde dizem já sentir um ambiente bastante  familiar.

Quanto ao futuro, Tiago Gomes não esconde que espera também poder ser ajudado. “Alguém vai ter de me ajudar a resolver a situação. Deixei tudo para socorrer a população. A única coisa que peço é um teto, o resto a gente desenrasca-se”, desabafou.

Até lá, vai continuar no terreno, a fazer o que tem feito desde aquela madrugada: ajudar quem precisa, mesmo sem saber como será o seu próprio amanhã.

A quase totalidade das casas de primeira habitação no concelho sofreu danos. Alvaiázere continua a recuperar dos estragos provocados pela depressão Kristin, que atingiu fortemente este concelho. A equipa de reportagem do Diário de Leiria encontrou, sobretudo nas zonas florestais, marcas ainda bem visíveis da tempestade.

Fevereiro 9, 2026 . 13:00

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right