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Bidoeira de Cima sem luz há 20 dias

Geradores mantêm-se como peça essencial numa freguesia sem luz há mais de duas semanas.

Na freguesia da Bidoeira de Cima, 20 dias sem eletricidade expuseram fragilidades antigas e reforçaram a força da entreajuda. Adriana Lisboa, uma das testemunhas da depressão Kristin, contou ao nosso jornal como se ‘reconstrói’ a normalidade quan­do tudo falha.
Na zona do Carriço, na freguesia da Bidoeira de Cima, o som que se ouvia nas manhãs seguintes à tempestade não era o do trânsito nem o das rotinas habituais. “Só se ouviam motosserras”, recorda Adriana Lisboa, de 30 anos, natural da Bidoeira de Cima. Foram dias “horríveis”, consecutivos sem eletricidade, com infiltrações nas casas, alimentos perdidos e um sentimento de isolamento que só se dissipou quando as comunicações começaram a regressar.
“Algumas zonas tiveram eletricidade primeiro que outras. Tem a ver com as fases e com a segurança também”, explicou. A reposição do serviço foi feita com recurso a geradores, num esforço que considera “redobrado” para devolver às populações “os mínimos, um bocado de dignidade”. Ainda assim, sublinhou que há famílias que continuam sem qualquer fornecimento elétrico. “Há pessoas que nem sequer tiveram possibilidade monetária para terem geradores. Há pessoas que não têm mesmo eletricidade”.
Na sua casa, os danos concentraram-se no telhado. “Chove em praticamente todas as divisões”, contou. A falta de tréguas do tempo agravou o cenário e “não tem dado sequer para remendar os estragos”. Numa região que descreve como sendo mais rural e com menos recursos, o problema não é apenas reconstruir, é encontrar materiais. “Há muitas pessoas que têm casas com telhados que já não são fabricados há mais de 20 anos. Nem para remendos conseguem telhas ou telhões”, constatou, em declarações ao nosso jornal.
Apesar disso, Adriana Lisboa reconhece que, no meio do caos, teve “sorte”. “Na minha rua houve chaminés que caíram, buracos, telhados completamente destruídos”. Comparando com os vizinhos, sente que os estragos na sua casa foram menores. “No meio do azar todo ainda tivemos alguma sorte”.
O que mais a marcou, porém, foi a sensação de desconhecimento nos primeiros dias. Sem rede móvel, sem internet e sem eletricidade, a população da Bidoeira de Cima viveu praticamente às cegas. “As pessoas de fora sabiam o que é que tinha acontecido. Nós aqui não sabíamos a dimensão.” Só três ou quatro dias depois, com o restabelecimento gradual das comunicações, perceberam a gravidade da situação. “Eu acho que só aí tivemos noção do que é que foi, e do que vai demorar muito tempo a ser normalizado”.
Perante a ausência inicial de respostas imediatas, foi a comunidade que avançou. “Quem andava a cortar as árvores eram as pessoas”. Vizinhos, familiares e amigos arregaçaram as mangas para limpar estradas, remover árvores e ajudar a proteger casas. A entreajuda tornou-se essencial, sobretudo numa zona onde muitos têm animais e arcas frigoríficas cheias de alimentos. “Quem tem gerador partilha”. Para Adriana Lisboa, foi essa rede informal que garantiu algum equilíbrio no meio da instabilidade. “Acho que só assim é que conseguimos um bocadinho de normalidade”.
A reconstrução será longa e dispendiosa. “Há pessoas que perderam empresas, perderam casas, há delas que perderam ambos”, aponta a moradora.

Fevereiro 16, 2026 . 13:30

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