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Igreja procura ser porto de abrigo para a comunidade abalada pela tempestade

A depressão Kristin deixou a região em sobressalto, com casas danificadas, famílias desalojadas e um sentimento persistente de medo. Perante este cenário, a Igreja procura escutar e dar consolo a quem ainda vive com receio

Num tempo em que o medo e o sofrimento se instalaram na comunidade, a Igreja tornou- -se para muitos um porto de abrigo, não apenas pelo acolhimento prestado aos desalojados, mas pelo espaço de escuta e consolo que tem oferecido a uma comunidade abalada e que tenta recompor-se após a tempestade que assolou a região.

O pároco de Leiria e de Cruz da Areia, José Augusto Rodrigues, explicou ao nosso jornal que tem procurado transmitir aos fiéis, principalmente nas homilias, a necessidade de reconhecer, “com frontalidade”, as consequências “desastrosas desta tempestade”.

Num segundo momento, acrescentou, importa ajudar cada um “a encontrar em Deus a força, a coragem e a determinação para o trabalho imenso que existe pela frente”, tanto o físico, na recuperação dos estragos, como o interior.

No acompanhamento emocional, o papel da igreja tem passado sobretudo pela escuta. Segundo José Augusto Rodrigues, a necessidade das pessoas, que ainda se sentem dominadas pela “intranquilidade e insegurança”, tem sido poder contar a sua história e de “ter alguém que as escute” e que as encoraje.

Uma das mensagens que costuma partilhar com os seus fiéis é a importância da partilha e da entreajuda como caminho de cura. “Costumo dizer que quanto mais nós estendermos a mão e abrirmos o coração ao sofrimento do outro, mais o nosso sofrimento diminui e mais a nossa ferida sara”, explicou, defendendo que é na solidariedade que se encontra o “bálsamo para a dor”.

O pároco reconheceu que quem tem procurado a Igreja chega “marcado pela dor” e em busca de “apoio espiritual”.
“Porque Deus permitiu isto?” A pergunta já lhe foi feita várias vezes.

O sacerdote reconhece que é uma interrogação quase inevitável, mas considera que parte de um pressuposto errado e que “não leva a lado nenhum”. “Não vamos ser capazes de encontrar resposta para essa pergunta que parte de um erro. Eu não acredito que o sofrimento venha de Deus e que a desgraça seja uma consequência de Deus”, sustentou.

Para o pároco de Leiria e de Cruz da Areia, o pensamento deve ser o de que a tempestade foi fruto da natureza “que segue o seu curso”. “Culpar Deus por isto não nos faz bem nenhum, só nos fragiliza mais ainda, porque não temos respostas para isto”, afirmou, assegurando que Deus “está ao lado de todos aqueles que estão a dar a vida pela reconstrução desta terra” e de todos aqueles que “deitam mãos à obra”.

Ainda assim, sublinhou, a maioria tem encontrado refúgio na fé. Muitas intenções de missa têm sido dedicadas às vítimas ou pedindo ajuda para ultrapassar e vencer esta “tragédia”.
A Sé de Leiria tem estado de portas fechadas pelos “danos significativos que sofreu” essencialmente no telhado, tendo as celebrações religiosas passado para a Igreja de Santo Agostinho e do Espírito Santo, em Leiria. Na próxima quarta--feira, a sé reabre ao culto para a celebração da quarta-feira de Cinzas, numa cerimónia presidida pelo bispo da diocese de Leiria-Fátima, José Ornelas.

Na Cruz da Areia, a paróquia cedeu as salas de catequese para acolher desalojados. Lá, estão instaladas 33 camas e mais de 20 encontram-se ocupadas, número que, admitiu o pároco, deverá manter-se por algum tempo.

Na Marinha Grande celebrou-se missa à luz das velas
Na Marinha Grande, concelho também bastante fustigado pela depressão Kristin, o pároco Patrício Oliveira procurou, desde o primeiro momento, manter uma “certa normalidade”.
Na quarta-feira da tempestade, celebrou missa à luz das velas para duas pessoas que apareceram na igreja. No meio da escuridão e do sofrimento, a intenção foi “rezar um pedacinho” e preservar um espaço de paz no meio do caos.

O sacerdote admitiu que a presença dos fiéis nas celebrações tem diminuído “significativamente”, até porque “há gente ainda sem luz e sem água que ainda não foi à procura” da igreja. Mesmo assim, tem procurado manter as portas da igreja abertas e a rotina litúrgica.

Apesar de sentir receio e “alguma apreensão” nos fiéis, Patrício Oliveira tem retirado uma leitura surpreendentemente positiva das conversas que tem tido: há quem reconheça que, apesar da dimensão da tragédia, “poderia ter sido pior”. “Há compreensão e a sensação de que apesar de toda a tragédia ainda houve momento de graça”, referiu.
Também o pároco assegurou que “Deus” está com a comunidade “todos os dias” e considera “ingrato” atribuir-lhe “apenas as coisas más”.

A igreja paroquial e algumas capelas da Marinha Grande sofreram danos na sequência da tempestade. Patrício Oliveira ajudou em alguns trabalhos de reparação e, para além disso, tem visitado alguns seniores para ajudar no que era possível.

Fevereiro 17, 2026 . 10:00

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