
Plataforma junta animais desaparecidos com as suas famílias após a tempestade
“A iniciativa nasce de experiência própria”. É assim que Catarina Duarte resume o impulso que a levou a criar a página de Instagram ‘Perdidos na Tempestade Leiria’, uma plataforma que reúne animais que desapareceram após a passagem da depressão Kristin no concelho de Leiria e zonas envolventes, e operando como “mediador” entre os donos e as pessoas que os encontraram.
Com 30 anos, natural de Monte Real, Catarina Duarte trabalha em Lisboa como designer de produto digital. Gere a página com João Pinto, também natural de Leiria, e juntos criaram um espaço digital que, até ao momento, já reuniu cerca 56 animais com as suas famílias. A responsável conta ao nosso jornal que ainda estão desaparecidos 30 animais.
Nos dias que se seguiram à tempestade, Catarina Duarte teve de regressar a Lisboa e já com acesso à Internet, começou a acompanhar publicações nas redes sociais e em páginas de associações de animais, onde “muita gente estava a publicar que tinha perdido o seu animal com a tempestade”. A motivação tornou-se ainda mais pessoal quando um cão apareceu atrás da sua casa, arrastado pela força do rio. “Tivemos de o resgatar, comecei a ver nos grupos quem é que tinha dado pela falta de um cão e encontrei a senhora”. Conta que entrou imediatamente em contacto com a dona para lhe dizer que tinha encontrado o animal e que ele estava “protegido e guardado”.
Perante a dimensão dos danos causados pela intempérie, Catarina Duarte começou a notar um padrão: muitos pedidos dispersos, partilhados repetidamente, mas sem um ponto central de organização. “Face à catástrofe é completamente compreensível que as casas se tenham partido e os animais tenham fugido. Comecei a ver essa necessidade: muita gente a republicar e não haver um único sítio onde estivesse toda essa informação”.
Embora já existisse a plataforma SOS Leiria para apoio à população afetada, Catarina Duarte percebeu que a questão específica dos animais não estava contemplada. Viu assim uma oportunidade de criar essa “parte que faltava, essa plataforma de concentração de pedidos, de pessoas que encontravam e de pessoas que perdiam os animais”.
A escolha do Instagram foi natural, porque “as pessoas já estão bastante acostumadas a essa rede social”. Como designer de produto digital, Catarina Duarte encara a página como uma resposta rápida a uma necessidade concreta. “Todos os dias crio produtos para as necessidades das pessoas e aqui vi que era mais um produto que tinha de criar, mais uma solução”.
Segundo a gerente da página. o trabalho tem sido exigente, mas também “super reconfortante estar a ajudar, ter um papel cívico no meio de tanta destruição”.
“Quando cheguei a Lisboa e tinha acesso a tudo, senti que tinha de fazer alguma coisa pelas pessoas que lá estavam e não tinham acesso a nada”, explicou.
As mensagens de agradecimento e os pedidos diários reforçam esse sentimento. Catarina Duarte reconhece que, na prática, está a prestar um “serviço público”. “No fundo, toda a ideia foi ter uma solução rápida, foi uma resposta a uma necessidade que não estava a ter solução em mais lado nenhum”.
A médio prazo, a experiência poderá não terminar aqui. Em contacto com associações, nomeadamente da Associação Protetora dos Animais da Marinha Grande (APAMG), Catarina Duarte tem recebido incentivos para manter o projeto ativo, já que a perda e o encontro de animais é uma realidade constante. “Para já foi uma resposta de esforço a uma urgência, depois veremos se continuamos, talvez não neste formato de emergência, mas de forma mais estruturada”.
Leiria continua com zonas sem Internet, rede móvel ou energia, o que significa que muitos casos podem ainda vir a surgir ou a ser resolvidos. “Para já, estamos focados em ajudar enquanto as pessoas estão de pés e mãos atadas, sem conseguir comunicar”.







