Última Hora

Do 8 ao 80

Fevereiro 26, 2026 . 10:00
Opinião de Samuel Cardoso: "Depois da tempestade, surgiu algo raro e profundamente bonito. Uma onda de solidariedade genuína, feita de pessoas anónimas, de mochila às costas, que chegaram para ajudar sem pedir nada em troca. Vieram de norte a sul do país e também do estrangeiro".

revela por inteiro. Não pelo que diz de si própria, mas pelo que mostra quando é posta à prova. A tempestade Kristin foi um desses momentos para Leiria. Em poucos dias, quase sem aviso, fomos confrontados com extremos difíceis de ignorar: o melhor e o pior do ser humano, o melhor e o pior da política, o melhor e o pior da nossa forma de viver em sociedade. Tudo em simultâneo, no mesmo espaço e no mesmo tempo.
Depois da tempestade, surgiu algo raro e profundamente bonito. Uma onda de solidariedade genuína, feita de pessoas anónimas, de mochila às costas, que chegaram para ajudar sem pedir nada em troca. Vieram de norte a sul do país e também do estrangeiro. De Espanha, de França, da Suíça. Vieram da Irlanda, com dois ou três dias de viagem, apenas para ajudar na reconstrução da rede elétrica. Pessoas que não conheciam Leiria, mas que sentiram que ali era preciso estar. Trabalho duro, horas intermináveis, cansaço visível e uma disponibilidade quase silenciosa. Uma solidariedade concreta, feita de gestos simples e mãos estendidas, que merece ser reconhecida.
Mas, quase em paralelo, revelou-se também o outro lado. O abuso da boa vontade coletiva. Casos de pessoas sem necessidade a procurar alimentos repetidamente. O roubo de geradores, de gasóleo, de cabos. A necessidade de montar piquetes para guardar equipamentos que existiam apenas para servir quem precisava. Não foram muitos, mas foram suficientes para fragilizar a confiança comum. Porque uma comunidade não se mede apenas pelos seus gestos mais nobres; mede-se também pela forma como lida com os comportamentos que a põem à prova.
Também ao nível político o contraste foi evidente. Quero acreditar que quem nos governa foi apanhado desprevenido, como quase todos nós fomos. Ninguém estava à espera de algo desta dimensão. Foi brutal. Quero acreditar também que as decisões tomadas o foram com a convicção de que eram as melhores possíveis naquele momento. Algumas acertaram, outras nem por isso. O próprio admitiu — e nem precisava. Errar faz parte de decidir em contexto de exceção. Somos todos humanos.
Ainda assim, a exposição pública exige escrutínio. Governar implica responsabilidade acrescida e a crítica faz parte da democracia, desde que seja construtiva e responsável. Não para atacar pessoas, mas para avaliar decisões. Até porque há ainda hoje muita gente que não tem verdadeira noção do que se passou nas freguesias mais periféricas à cidade. Para alguns foi devastador. Para alguns, continua a ser. Essa diferença de perceção entre o centro e a periferia também conta e não pode ser ignorada.
Democracia não vive apenas de direitos proclamados. Vive de responsabilidades assumidas. Exige exigência, mas também memória, empatia e respeito. Exige que saibamos reconhecer o que foi bem feito, sem fechar os olhos ao que falhou.
Esta comunidade mostrou que é capaz de gestos extraordinários. Mas precisa de mais. Mais responsabilidade. Mais respeito. Mais consciência do caminho que percorreu. Porque os extremos estão mais próximos do que gostamos de admitir, e o equilíbrio constrói-se todos os dias. Força, Leiria.
“O homem prudente vê o perigo e evita-o; os insensatos seguem em frente e sofrem os danos.”
Mas isto sou eu.

Fevereiro 26, 2026 . 10:00

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right