
Entre a impotência e o espírito de missão, um mês sem descanso nas juntas de Leiria
Emílio, coveiro e cantoneiro, foi pau para toda a obra. Fernanda, administrativa, dormiu “com a tempestade na cabeça”. Nélia escondia-se para chorar “um bocadinho”. São trabalhadores de juntas de Leiria e só agora começam a ter descanso da tempestade.
Nélia Ferreira esteve quase um mês sem luz. Só na manhã de quinta-feira é que veio e, também por isso, acredita que a sua história “ajudou na resposta ou a minimizar a frustração” que os fregueses sentiam, quando chegavam à Junta de Freguesia da Bidoeira de Cima, a reclamar da falta de energia.
“Às vezes, eu tenho que fugir dali e vir para aqui chorar um bocadinho”, conta à agência Lusa a administrativa da junta, que fala numa sala anexa ao espaço de atendimento ao público.
Com a catadupa de pedidos de gente aflita e desamparada ao longo das últimas semanas, depois da destruição deixada pela depressão Kristin, a 28 de janeiro, Nélia e a sua colega – as únicas funcionárias daquela junta do norte do concelho – tinham de se ajudar mutuamente: “Quando uma está a ir mais abaixo, a outra levanta.”
“Não é fácil ouvir certas histórias”, diz Nélia, recordando, de lágrimas aos olhos, José Dionísio, que ia todos os dias à junta “pedir por Deus” para lhe arranjarem luz. As duas funcionárias não tinham uma resposta para lhe dar e o homem, reformado, ficava “pior de dia para dia”.
Na quarta-feira, ainda sem luz, José, de 86 anos, lamentava-se, assumindo-se triste. Enquanto Nélia lhe dava a mão na sua casa ainda às escuras, dizia: “Ela é que me tem dado a alma. Tem-me dado muito valor, que não pode fazer mais nada.”
Ao longo das semanas, a funcionária foi vendo as pessoas cada vez mais impacientes, frustradas e angustiadas.
“Há pessoas que saem daqui a chorar. É uma revolta porque não sentimos que viesse uma ajuda a sério. Seja na luz, na água, nas telecomunicações ou na reconstrução das casas”, diz.
Agora, o ritmo de trabalho acalmou, mas ainda recebe pedidos de apoio por causa dos estragos. Deixa elogios aos voluntários e ao presidente da junta e restante executivo, que têm estado a fazer “das tripas coração”.
“Aqui, foi só os habitantes, a junta e voluntários. Do Estado central não vi nada”, critica.
Tiago Santos, presidente da Junta da Bidoeira de Cima, confirma a sensação de abandono: “[De entidades] de fora do concelho, não tivemos ninguém”.
Naquela freguesia que chegou a adiar as eleições presidenciais, tenta-se agora voltar à normalidade dos serviços da junta, mas o autarca acredita que “ainda vai demorar até essa normalidade ser encontrada”.
Na freguesia de Monte Redondo, também no norte do concelho, Raquel Petrónio repete a ideia de impotência, quando andava no porta-a-porta, a encaminhar voluntários para remendos nos telhados e a procurar perceber o que as pessoas precisavam.
“Às vezes, não conseguíamos fazer mais nada do que dar uma palavra”, conta a administrativa de 40 anos. “Era dizer: ‘Estamos aqui’”, acrescenta a colega da contabilidade, Natália Ferreira.
Apesar de o trabalho ser à secretária, tiveram de ajudar no que fosse preciso. Hoje, conta Raquel, já sabem “de motosserras, de telhados e até para que é que serve a espuma que se põe nas telhas”.
Ana Sofia, de 32 anos, tinha começado o trabalho na junta semanas antes da depressão. Não poderia imaginar um primeiro mês tão complicado, em que teve de ganhar poder de encaixe. “As pessoas vinham numa revolta muito grande”, recorda.
Na zona de atendimento também está Fernanda Carvalho, há 31 anos na junta, que dormiu e ainda dorme “com a tempestade na cabeça” e com pesadelos. Mesmo que o movimento ao fim de um mês esteja mais calmo, a funcionária, de 64 anos, acredita que ainda irá demorar “um tempo até voltar à normalidade”.
Emílio Costa, funcionário que anda sempre pelas ruas de Monte Redondo, já estava habituado a fazer um pouco de tudo, desde fazer de coveiro à manutenção dos parques.
Há 14 anos na junta, voltou a ser pau para toda a obra neste mês. Andou de trator a tirar pinheiros da via pública, deu uso à motosserra, transportou mercadoria, bens alimentares e telhas, e fez muitas limpezas, que ainda não acabaram.
“Deixámos de ter horário, trabalhámos até ao anoitecer e levantávamo-nos mais cedo para ajudar as pessoas”, afirma.
“Emílio, tens de ir aqui, tens de ir ali, tens de fazer isto, tens de fazer aquilo. Coitado, ele sozinho fazia tudo”, recorda a presidente da Junta de Freguesia de Monte Redondo, Ana Carla Gomes, elogiando os funcionários, que “trabalharam sábados, domingos, de manhã à noite, estiveram sempre aqui pela população”.
Ana Carla Gomes, professora de Português, começou o primeiro mandato como presidente três meses antes da tempestade.
Casas destelhadas, a bomba de combustível fechada, inundações nas semanas seguintes, estradas por desimpedir, voluntários para coordenar e pessoas que às 08:00 já estavam à porta da junta a reclamar da falta de água e luz. Sem comunicações, andava-se para a frente e para trás de carro, a acudir aos problemas que iam surgindo numa vila que esteve também mais de uma semana sem água.
“Na primeira semana, sentimo-nos completamente desorientados, desamparados, sozinhos”, desabafa a autarca, que só conseguiu tomar banho ao fim de uma semana, quando veio um “fiozinho de água gelada”.
Sem dormir grande coisa nos primeiros dias, a remoer no que fazer, sentiu até saudades dos alunos mal comportados na sala de aula, em dias caóticos em que chegou a ter pessoas a entrar na junta aos gritos, desesperadas, a chorar, outras a chamar nomes e outras a “dizer que se iam suicidar”.
“Ninguém estava preparado para isto. Eu cheguei a falar com outros presidentes que já estavam no segundo ou terceiro mandato e diziam-me para eu não ficar assim, que eles estavam iguais. Mas eu ficava desesperada. Perguntava para mim: ‘Será que eu não posso fazer mais nada?’ Porque era uma impotência que eu ainda sinto hoje”, vinca.
Para Ana Carla Gomes, que assume uma revolta pela falta de noção do poder político da dimensão da catástrofe, “não haverá tão cedo” um regresso à normalidade.
“Eu não senti a presença do Estado, de forma alguma, e fiquei muito triste quando o primeiro-ministro disse que não era preciso prolongar o estado de calamidade porque estava tudo bem. Não estava tudo bem e não está tudo bem”, vinca.







