
Colmeias afetadas pelas intempéries podem comprometer culturas agrícolas
A depressão Kristin que atingiu o distrito de Leiria deixou marcas evidentes em casas, estradas e zonas florestais. Mas há um impacto menos visível que começa agora a preocupar: a destruição de colmeias e a morte de enxames que podem não só comprometer a produção de mel como a polinização agrícola nos próximos meses.
No Coimbrão, Patrícia Pedrosa e o marido Mário Fernandes, responsáveis pela marca Hive, após um mês da passagem da tempestade, ainda estão a avaliar os estragos. Os quatro apiários que exploram foram fortemente afetados. “Tínhamos árvores em cima das colmeias. Num deles ainda está tudo alagado. Destruídas mesmo foram dez colmeias, e pelo menos 60 ficaram afetadas mas conseguimos remediar”, explica.
O problema vai além das estruturas danificadas. Muitas abelhas morreram afogadas ou debilitadas pela exposição prolongada à chuva. “Elas precisam de sair para se alimentar e fazer o voo higiénico. Com a chuva constante, ficaram dias sem conseguir sair”, relata, acrescentando que a sobrevivência de vários enxames permanece “incerta”.
A tempestade atingiu a região numa fase determinante do calendário apícola. A extração do mel de eucalipto estava prestes a começar, mas teve de ser adiada. A campanha seguinte, de mel multiflora, poderá igualmente sofrer atrasos. “Vai tudo atrasar. E não é só a questão do mel. Se elas não estiverem bem, a polinização à volta também não vai estar”, sublinha a apicultora.
No Coimbrão, a persistência mantém-se enquanto aguardam a reposição de acessos e a estabilização das colónias sobreviventes, os apicultores continuam a trabalhar para salvar o que resta. “A apicultura é dedicação e amor pelas abelhas. Não vamos desistir. Se as nossas amiguinhas estiverem bem, o resto vem”, afirmou Patrícia Pedrosa.
A situação repete-se um pouco por toda a região, segundo a Associação de Apicultores da Região de Leiria, Ribatejo e Oeste, que reúne cerca de 400 associados. No concelho de Leiria, existirão cerca de quatro mil colmeias registadas.
Para a associação, o problema vai muito além do valor económico imediato, a morte de enxames significa a interrupção de um serviço ecológico essencial. “Quando há uma calamidade destas, não se perde só o que se vê. Perde-se o trabalho de polinização que deixa de existir nas culturas agrícolas e nas plantas autóctones”, adiantou Anabela Mendes, membro da direção da associação, que afirmou que os impactos só se vão sentir nas campanhas seguintes. A responsável compara as consequências às de um grande incêndio: a recuperação é lenta e invisível nos primeiros tempos. “As regiões empobrecem em termos ecológicos e económicos. Fala-se pouco do impacto económico da polinização, mas ele existe e é enorme”.
Num setor onde cerca de 90% da atividade é “amadora”, o desânimo pode ser tão perigoso quanto a tempestade. “Estas calamidades trazem outra consequência grave: as pessoas cansam-se e desistem. E quando os apicultores desistem, as associações enfraquecem”. Enquanto aguardam apoios e prazos mais flexíveis para a declaração de prejuízos, os apicultores tentam salvar o que resta, alimentando colónias fragilizadas e reconstruindo estruturas.
Muitos ainda não conseguiram sequer chegar aos seus apiários, devido a caminhos obstruídos e falhas nas comunicações. “O levantamento que temos ainda não é representativo. Há colmeias que podem estar de pé, mas as abelhas morreram ensopadas. Outras estão isoladas, sem reservas suficientes”, explica.
As perdas confirmadas variam de caso para caso, com relatos de apicultores que perderam dezenas de colmeias, no entanto, os responsáveis alertam que o impacto real só será conhecido posteriormente.







