
Subida do gás natural vai aumentar custos de produção das empresas
O presidente da NERLEI CCI – Associação Empresarial da Região de Leiria/Câmara de Comércio e Indústria aponta dois caminhos para as empresas a braços com o aumento do preço do gás, na sequência de um ataque militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão.
Ao nosso jornal, Luís Febra confirma que o aumento do preço do gás já está a ter impacto nas empresas da região. “Sendo certo que as empresas podem ainda estar a consumir gás natural que tivessem adquirido antes dos aumentos recentes, a aquisição de novas remessas está já a refletir a instabilidade do mercado. Sabemos que os aumentos são expressivos, em alguns casos chegou já a 80%”, aponta o presidente, sem dúvidas de que esta subida dos preços do gás natural “vai, claramente, aumentar muito os custos de produção das empresas”.
E aqui há duas vias possíveis, ambas com “efeitos adversos”, alerta Luís Febra: “Ou as empresas conseguem refletir estes aumentos do gás, nos preços de venda dos seus produtos, o que vai contribuir para o aumento de preços e gerar inflação; ou, não conseguindo refletir nos preços esses aumentos de custos, vão ver as suas margens de lucro serem reduzidas, com todas as consequências que daí advém para a sustentabilidade das empresas”.
Luís Febra defende “medidas de política pública” para minimizar o impacto, “umas mais de curto prazo e outras mais estruturais”. “Caberá ao Governo analisar a melhor forma de agir e atuar, de forma a manter a competitividade das nossas empresas e por essa via o crescimento da economia portuguesa. Para já, consideramos que deve ser considerada a redução do imposto sobre produtos petrolíferos”, afirma o presidente da NERLEI CCI que, enquanto associação e câmara de comércio e indústria que representa o tecido empresarial do distrito de Leiria, irá acompanhar a situação, em estreita articulação com as outras associações empresariais sectoriais e regionais e também com a CIP – Confederação Empresarial de Portugal, no sentido de “sensibilizar o Governo para adotar medidas que possam mitigar estes impactos negativos nas empresas e na economia da região e do País”.
O Diário de Leiria contactou algumas empresas de cristalaria da Marinha Grande, assim como a Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e Cristalaria (APICER), mas até à hora de fecho desta edição tal não foi possível.
À Agência Lusa, o vice-presidente da APICER, Paulo Almeida, admitiu na semana passada que “com quatro semanas o setor consiga encaixar e aguentar sem transmitir ao mercado estes aumentos de preços e, portanto, toda a cadeia de valor vai encaixar este custo adicional”. “Ultrapassado esse tempo, é impossível que as empresas consigam manter os mesmos preços de mercado”, alertou, realçando que “a situação é mais grave” perante a concorrência de produtos vindos da China ou da Índia.
Segundo Paulo Almeida, o setor é “altamente dependente do gás natural” para os seus processos, sendo que a cadeia de valor também é “toda ela muito dependente do preço” daquele recurso.
O responsável notou que o custo do gás “praticamente está a duplicar” em relação ao período anterior ao conflito e, se atender-se “a uma percentagem de incorporação de gás na casa dos 30% em média no setor”, está a falar-se “de muito dinheiro”. “Torna-se completamente inviável e todas as margens são absorvidas por este aumento”, disse.
De acordo com Paulo Almeida, este aumento terá um duplo impacto, uma vez que “as formas de determinar o custo da eletricidade na Europa são o custo marginal dos ciclos combinados, que estão completamente indexados ao preço do gás natural, e aquilo que vamos assistir é diretamente a um aumento proporcional na eletricidade”.
Questionado sobre a forma como a indústria se está a preparar, o responsável adiantou que “há algumas empresas que conseguiram ter o gás fixado por algum tempo”, mas o “grande problema” é que isso não acontece ao longo da cadeia de valor, com aumentos esperados, por exemplo, nas embalagens de cartão ou dos vidros, que terão de ser refletidos no mercado.
“A partir desse momento, não temos outra solução senão ir para o mercado e tentar repercutir esses custos no mercado, sob pena de podermos entrar num caminho que é o caminho da não viabilidade económica”, sustentou.
A APICER defende que “sejam criadas medidas de apoio a alguma estabilidade no preço do gás natural para apoiar as empresas nesta fase” e que o Governo “deve subsidiar o consumo de gases renováveis”, ajudando, por um lado, na descarbonização, e, por outro, a deixar “de ter este impacto tão direto do gás natural”..







