
Sociedade “preventiva” é capaz de “planear todas as eventualidades”
Uma sociedade preventiva, que aprende com os erros do passado e se prepara para um futuro exigente no que às alterações climáticas diz respeito. Foi desta forma que o presidente do Banco de Portugal apontou o caminho de Portugal e de Leiria, onde esta segunda-feira participou na conferência ‘Leiria: Economia, Risco e Resiliência’.
Álvaro Santos Pereira defendeu uma sociedade “preventiva e não reativa”, capaz de “planear todas as eventualidades”. E se, numa primeira fase, num cenário destrutivo como aquele que Leiria viveu há quase dois meses, a atenção deve estar totalmente focada em “ajudar as empresas e as famílias”, num segundo momento, “quando a memória começa a ser menos visível”, é necessário “planear melhor, conseguir prevenir para uma sociedade mais resiliente, mais robusta e com mais futuro”.
O governador do Banco de Portugal fez uma apresentação com exemplos de eventos que devem servir de “lições para o futuro”, começando nas alterações climáticas, passando pelo apagão do ano passado, o contexto internacional na ótica dos ciberataques, terminando no nível sísmico de Portugal.
“Sociedades que planeiam e se preparam para diversas eventualidades e cenários são mais resilientes e robustas”, apontou o antigo ministro, defendendo que os custos de adaptação às alterações climáticas “devem ser devidamente estimados e integrados nas análises de sustentabilidade da dívida”, assim como as populações “não podem ficar esquecidas”. “É preciso continuar a acompanhar a recuperação das zonas afetadas e a monitorizar os impactos económicos”, disse, considerando “imperativo” corrigir falhas detetadas nos sistemas e infraestruturas.
A conferência permitiu abordagens diferentes dos vários intervenientes, como João Duque, do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, que considerou que se deve aproveitar a destruição para dar “estímulo de confiança, de suporte e de garantia para que não haja falta de liquidez”, sem pôr em causa o financiamento, defendendo a “intervenção do Estado para dar essa garantia”. “É necessário uma garantia do Estado Central para que os agentes económicos possam responder em consciência”, resumiu.
O professor do Politécnico de Leiria, Ricardo Duarte, defendeu a necessidade de “trabalhar na pior situação para prevenir” e ser mais “vigilante”, considerando que o imóvel “é um dos ativos mais importantes de uma empresa”. “Tudo o que teve solução de engenharia resultou. O que é clandestino, que não tem qualquer acompanhamento técnico, ficou destruído e destruiu o que estava bem feito”, disse.
Filipe Duarte Santos, do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável, alertou para o “excesso de energia” do sistema climático, responsável pelos eventos extremos que o mundo tem assistido, considerando que a transição energética apenas está a “adicionar” elementos e não a quebrar ciclos, lembrando ainda que a procura global por energia entre 2000 e 2023 aumentou 53 por cento.
Assim, disse, é de esperar a continuação de fenómenos extremos, com períodos de seca e outros de muita precipitação, reconhecendo que “os modelos climáticos não dão a possibilidade de prever os próximos eventos”.
“A tecnologia não altera as leis da física. Ou nos adaptamos ou sofremos as consequências”, disse, dando como exemplo a China, onde a eletrificação assume especial relevância, considerando “má ideia” que a Europa e os EUA “não tenham outras formas de energia”.
Entre os intervenientes estava Victor Prior, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, que disse não se lembrar de “tantas tempestades consecutivas” a passar por Portugal, dando nota de alguns números, desde logo as “mais de 40 mil descargas” registadas nos dias 4 e 5 de novembro de 2025, que foi “um dos anos mais chuvosos de sempre”.
Quanto à depressão Kristin que devastou a região, explicou que a rajada de vento mais forte, de 177,8 Km/h, foi registada na estação localizada na Base Aérea de Monte Real. Em Ansião, a estação meteorológica ali instalada registou como maior rajada de vento 172,4 km/h. Análise feita, Victor Prior mostrou-se preocupado com os incêndios devido à destruição da floresta. “Muitas árvores passaram a ser acendalhas”, alertou.








