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A violência que não começa na violência

Março 26, 2026 . 16:30
Opinião de Samuel Cardoso: "Gosto de pensar na educação como um jardim. Quando é cuidado, acompanhado, podado com equilíbrio, cresce com ordem e beleza".

Nos últimos dias, circularam nas redes sociais imagens difíceis de ignorar. Um jovem agredido de forma violenta por vários colegas, já no chão, sem capacidade de defesa. Um outro episódio, em plena luz do dia, com um indivíduo a circular com uma catana numa rua de Coimbra.

Mais do que os casos em si, que já são graves, impressiona a forma como acontecem: sem limite, sem recuo, sem consciência do outro.

E a pergunta surge quase inevitável: como é que chegamos aqui?

A violência que hoje nos choca não começa no momento da agressão. Começa muito antes. Começa na forma como educamos, na forma como acompanhamos, na forma como corrigimos — ou deixamos de corrigir.

Talvez comece quando a família se torna mais distante. Quando o tempo é escasso e as prioridades se multiplicam. Quando os filhos crescem mais acompanhados por ecrãs do que por presença. Quando a correção é evitada para não gerar conflito. Quando o “não” é substituído por uma explicação, por uma desculpa, por uma cedência.

Talvez comece quando uma má nota é sempre culpa de alguém. Quando o erro nunca é assumido. Quando a responsabilidade é desviada. Quando se passa de ano sem se aprender. Quando se normaliza que tudo corra bem, independentemente do esforço. E quando esta ausência de exigência se repete ao longo dos anos, deixa de ser exceção e passa a ser regra.

Não se trata de apontar o dedo a pais, professores ou instituições. Mas talvez seja tempo de assumirmos que todos temos uma parte de responsabilidade no caminho que fomos permitindo construir. Trata-se de reconhecer que, como sociedade, fomos relaxando na exigência, na responsabilidade e, sobretudo, na capacidade de aceitar correção.

A humildade de aceitar um limite, de ouvir uma repreensão, de reconhecer um erro — tudo isso forma carácter. E o carácter não se constrói no momento da crise, constrói-se no dia a dia, muitas vezes em silêncio, em pequenos gestos, em decisões que parecem insignificantes, mas que moldam tudo.

Gosto de pensar na educação como um jardim. Quando é cuidado, acompanhado, podado com equilíbrio, cresce com ordem e beleza. Quando é deixado ao acaso, cresce também — mas de forma desordenada, onde tudo se mistura e nada se destaca.

Sem cuidado, não há estrutura. E sem estrutura, não há limite. E sem limite, não há travão.

Talvez o problema não seja apenas a violência que vemos nas imagens. Talvez seja a ausência de formação invisível que deveria ter acontecido antes, ao longo de anos em que se foi cedendo, desculpando e adiando aquilo que deveria ter sido corrigido.

Sem consequência, não há aprendizagem. Sem aprendizagem, o erro repete-se. E quando o erro se repete sem correção, transforma-se em algo maior.

Vivemos num tempo que valoriza a liberdade — e bem. Mas a liberdade sem responsabilidade torna-se desordem. E a desordem, quando cresce, acaba quase sempre em conflito.

Talvez esteja na altura de parar e refletir. Não apenas sobre o que aconteceu, mas sobre o que permitiu que acontecesse. Não apenas sobre os atos, mas sobre as raízes.

Porque a violência que hoje nos choca não nasceu ali, cresceu lentamente onde ninguém a travou.

“Melhor é o homem paciente do que o guerreiro, mais vale controlar o seu espírito do que conquistar uma cidade”.

Mas isto sou eu.

Março 26, 2026 . 16:30

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