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Seguro promete dar voz ao povo depois de testemunhar a “extrema violência” da tempestade

No último dia da Presidência Aberta na Marinha Grande, António José Seguro ouviu populações, autarcas e empresários afetados pela tempestade e prometeu dar voz aos apelos que lhe foram feitos

Na linha onde o mar avança e a terra resiste, há vidas suspensas entre a espera e a incerteza. Foi esse o cenário que encontrou o Presidente da República durante a sua deslocação à Praia da Vieira, no concelho da Marinha Grande, no âmbito da Presidência Aberta.

Ali, entre casas marcadas pelo sal, pelo vento e pelas sucessivas intempéries, António José Seguro ouviu mais do que relatos: ouviu cansaço. Vítor Neves, morador da zona, falou com a frontalidade de quem já não espera promessas, apenas respostas.

“Não tenho respostas nem da CCDR Centro nem do município, estamos a aguardar”, disse, com a serenidade resignada de quem já submeteu candidaturas e acumulou prejuízos. A sua história não é isolada. É um eco repetido numa comunidade que se sente “massacrada” por eventos sucessivos: a tempestade Leslie, os incêndios, e agora a depressão Kristin.

 “Toda esta zona está em perigo”, alertou Vítor Neves, apontando não só à erosão costeira, mas também às consequências mais silenciosas: o impacto na agricultura, com os campos progressivamente invadidos pela areia, e a fragilidade crescente do Pinhal de Leiria.

Perante este e outros testemunhos de moradores, comerciantes e pescadores, António José Seguro assumiu um papel mais de ouvinte do que de decisor. “Eu venho ver como é que está a situação, dar voz a situações como a sua”, afirmou a Vítor Neves, reconhecendo que os apoios chegam de forma desigual — “nuns casos chegam, noutros não chegam”. Mais do que soluções imediatas, deixou um desejo simples, quase íntimo: “Que não volte a passar por esta tragédia.”

Mas a tragédia, nesta região, não se limita ao litoral. Na Mata Nacional de Leiria, o cenário é outro, mas o sentimento é semelhante: devastação e impotência perante a força da natureza. Foi na presença impotente do eucalipto do Tremelgo que Nuno Banza, presidente do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), apresentou a Seguro um retrato cru do impacto recente das tempestades.

“A dificuldade é sobretudo da severidade do impacto”, explicou, descrevendo um território marcado por árvores derrubadas e caminhos destruídos. Se os incêndios de 2017 já tinham deixado uma cicatriz profunda — com cerca de 8.900 hectares ardidos —, os eventos mais recentes agravaram o cenário: mais de mil hectares afetados e, sobretudo, a queda da maioria das árvores adultas que tinham resistido ao fogo.

Entre os símbolos dessa destruição está o eucalipto do Tremelgo. “Era uma árvore completamente saudável”, sublinhou Nuno Banza. Comparável a um edifício de 16 andares, tornou-se um ícone da violência da tempestade — um gigante tombado que materializa a dimensão invisível das alterações climáticas.

Mais do que um diagnóstico, o responsável do ICNF deixou um apelo. Um apelo que vai além das instituições e entra na esfera da responsabilidade individual. “Precisamos de todos”, insistiu, lembrando que apenas 3% da floresta é do Estado. O restante depende da ação de proprietários privados.

Tecido empresarial tenta reerguer-se

A comitiva presidencial seguiu para a cidade da Marinha Grande onde entre o ruído das máquinas e o silêncio imposto pela destruição, há empresas que continuam de pé — não intactas, mas resilientes. No coração industrial moldado pela tradição e pela inovação, a visita à Empresa Industrial da Borracha (EIB) revelou um outro lado da tempestade: o impacto profundo no tecido económico que sustenta a região. Neste caso em particular, um dos pavilhões ficou inoperacional, tanto ao nível da maquinaria como do telhado.

Ali, onde antes o ritmo era contínuo e previsível, agora impera a incerteza. Tiago Coutinho, um dos sócios-gerentes, descreve uma recuperação feita passo a passo, entre cálculos e esperança. “O prognóstico que temos para ter o pavilhão fechado é em meados de junho”, explica, como quem mede o tempo em função da reconstrução. Mas a verdadeira incógnita permanece: quando voltarão à normalidade?

“Só saberei dizer quando meter corrente elétrica e ver o que se passou”, admite. A frase, simples, carrega o peso de uma realidade complexa — máquinas danificadas, sistemas comprometidos e uma capacidade produtiva reduzida drasticamente. Só numa das máquinas, a quebra ronda os 60%.

Ainda assim, parar não foi opção. Para cumprir compromissos e preservar clientes, a empresa reinventou-se no imediato. Reforçou turnos, adaptou ritmos, exigiu mais de quem lá trabalha. “Já tivemos a trabalhar em quatro turnos, agora estamos em três”, conta, evidenciando o esforço coletivo para manter a atividade viva.

Ao seu lado, Joaquim Seiça acrescenta outra dimensão à equação: o custo invisível da resistência. “A produtividade diminuiu, a eficiência também”, reconhece. Trabalha-se, sim — mas trabalha-se mais e gasta-se mais.

Os números ajudam a perceber a escala do impacto. A destruição dos 2.018 painéis fotovoltaicos, arrancados pela tempestade, retirou à empresa cerca de 10% da sua autonomia energética. Um golpe que se traduz em faturas mais elevadas e numa dependência acrescida num momento já de si frágil.

Durante a visita, António José Seguro voltou a assumir o papel de observador atento, ouvindo quem vive diariamente o impacto das decisões — e da ausência delas. Mais do que números ou relatórios, o que encontrou foi uma empresa que resiste graças às pessoas: trabalhadores que se adaptam, gestores que arriscam, equipas que não desistem.

Abril 12, 2026 . 13:15

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