
António José Seguro ouviu, sorriu e deixou sinal de esperança
A passagem do Presidente da República, António José Seguro, por Leiria e Marinha Grande, no último dia da Presidência Aberta, na sexta-feira, ficou marcada por um contacto direto com populações, instituições e empresas afetadas pela tempestade de 28 de janeiro, num retrato transversal de perdas, resistência e reconstrução.
Na cidade de Leiria, o dia começou com um gesto inesperado: o artista plástico Ricardo Salanga passou a noite a pintar um retrato do Presidente da República, que decidiu entregar pessoalmente durante a visita às famílias afetadas. Desalojado com a mulher e o filho recém-nascido após a destruição da sua habitação na freguesia das Cortes, o artista encontrou na pintura uma forma de recomeço. Instalado numa das casas modelares dos Pousos, viu na arte um gesto simbólico de esperança num momento de fragilidade. “A minha arte dá alegria às pessoas”, afirmou.
A visita prosseguiu no centro da cidade, com a inauguração de uma exposição fotográfica sobre os efeitos da depressão Kristin e uma passagem pelo Mercado Santana, onde o Presidente destacou o modelo de resposta criado no âmbito do programa Reerguer Leiria. “As pessoas escusam de andar a correr as capelinhas todas”, afirmou, sublinhando a importância da concentração de serviços num único espaço. O Presidente elogiou ainda a resposta municipal, considerando que a experiência deverá servir de referência para futuras situações de crise.
No mesmo dia, Seguro reuniu com familiares de vítimas mortais da intempérie e com empresários da região, num encontro reservado, terminando a visita em Leiria na Escola Básica de Marrazes, onde constatou os danos ainda visíveis, incluindo a utilização de uma estrutura provisória como pavilhão desportivo.
Já na Marinha Grande, o Presidente contactou diretamente com populações do litoral afetadas pela erosão e pelas sucessivas intempéries. Na Praia da Vieira, moradores relataram o impacto acumulado de fenómenos extremos e a ausência de respostas institucionais. “Não tenho respostas nem da CCDR Centro nem do município”, afirmou Vítor Neves, refletindo um sentimento de frustração generalizado numa comunidade que se sente vulnerável ao avanço do mar e às alterações climáticas.
Na Mata Nacional de Leiria, o ICNF apresentou um cenário de forte destruição florestal, agravado por tempestades recentes que derrubaram árvores que tinham resistido aos incêndios de 2017. O eucalipto do Tremelgo tornou-se símbolo dessa devastação, descrito como um “edifício de 16 andares” abatido pela violência dos ventos. O responsável do instituto, Nuno Banza, deixou ainda um apelo à responsabilidade partilhada na gestão do território florestal, lembrando que a maioria da floresta é privada.
A deslocação terminou no setor industrial da Marinha Grande, com a visita à Empresa Industrial da Borracha (EIB), onde os efeitos da tempestade também se fizeram sentir. Um dos pavilhões ficou parcialmente destruído, com quebras significativas na produção e na capacidade energética da empresa, após a perda de mais de dois mil painéis solares. Os responsáveis descreveram um processo de recuperação lento e exigente, marcado pela reorganização do trabalho em vários turnos e pelo aumento dos custos de produção.
Ao longo da visita, António José Seguro assumiu sobretudo o papel de ouvinte, ouvindo testemunhos de perda, resistência e adaptação. Entre o litoral, a floresta e a indústria, ficou o retrato de uma região marcada pela vulnerabilidade, mas também pela capacidade de resposta de comunidades, instituições e empresas perante a força da natureza.








