
“Ser músico dá trabalho”
“Ser músico dá trabalho”. A conclusão de Leonardo Pinto parece pessimista, mas nem por isso lhe falta otimismo e vontade de querer fazer da música a sua vida. Depois de passar pela experiência do projeto de residência artística ‘Omnilab’, o jovem pombalense não tem dúvidas de que “é possível também trabalhar e viver [da música], mas também como hobby”.
Leonardo Pinto foi um dos jovens que participou no projeto de residência artística da Omnichord Records, que entre 30 de março e 6 de abril, cumpriu a sua sétima edição.
Embora já conhecesse o trabalho da Omnichord Records, a ‘Omnilab’ surgiu como uma “experiência nova” e havia que agarrar a oportunidade.
Durante uma semana de residência no espaço cultural ‘Serra’, em Reixida, freguesia de Cortes, concelho de Leiria, os artistas criaram uma versão de um tema composto por uma banda ou artista, da própria editora, e um tema original sem qualquer tipo de restrições artísticas ou criativas, onde existe “sempre espaço para que cada um se exprima livremente”, como partilhado pela editora em nota de imprensa.
Mas, para a arte fluir, houve todo um trabalho de bastidores, numa espécie de rotina que desafiava os próprios artistas. Durante o dia, os jovens trabalhavam no desafio proposto, mas também realizavam jam sessions, partilhando conhecimento entre eles. Ao nosso jornal, Leonardo Pinto recorda o final de cada dia e um “Betadine”.
“Como nos alcoólicos anónimos, em que tens que passar uma bola ou qualquer coisa, nós fazíamos isso com um betadine. Passávamos a cada um e depois contávamos as histórias, como é que fomos ali parar, fazíamos músicas, éramos artistas e pronto, era mais ou menos isso”, lembrou.
Leonardo Pinto assume a residência artística como “um novo capítulo”, que não só lhe deu a oportunidade de “conhecer também a malta da Omnichord” e os jovens músicos, como lhe proporcionou “inspiração”.
“Foi uma semana muito importante, eu digo sempre, foi das melhores semanas que eu tive, foi super divertido estar lá”, concluiu.
Do projeto, o jovem músico disse que a melhor coisa que retirou foi que “ser músico, dá trabalho”, mas que o essencial foi a interação e a convivência com colegas da área e entender o trabalho que há por trás das músicas, sendo esta a primeira vez que esteve em trabalho num estúdio.
E porque ser artista em Portugal obriga a fazer “mil e uma coisas”, o jovem pretende terminar o ensino secundário e seguir um curso de animação digital.
A importância de partilhar conhecimento
Uma das particularidades da residência artística são os artistas de renome convidados para fazer mentoria aos jovens, como foi o caso de Fernando Ribeiro, vocalista da banda Moonspell, que disse ao nosso jornal ter gostado muito da experiência porque “desejava ter sido como eles” quando começou na música, e até ter participado num projeto similar e ter “contextos destes na altura em que os Moonspell se estavam a formar”.
“O importante neste projeto, para mim, são duas coisas. O contacto. Nem sempre os músicos em Portugal estiveram dispostos a partilhar o conhecimento. É um meio muito competitivo, os músicos mais ‘old school’ até nem querem partilhar o conhecimento com os mais jovens, e quando fazem, fazem de uma maneira um bocadinho altiva”, admitiu o músico, procurando ainda desmistificar o motivo pelo qual o caminho escolhido é a música.
Ao nosso jornal, Fernando Ribeiro destacou o trabalho da Omnichord Records, que “devia ser considerado a nível institucional e a nível nacional, porque são coisas de garantir sucesso”.
“São coisas que podemos, de alguma forma, acarinhar e torná-las mais potenciais, por assim dizer”, apontou. Foi exatamente o que procurou fazer. “Desmistificar um pouco as expectativas do que é isto de ser músico profissional e ir seguir uma carreira na música, porque há muitos momentos, há muito susto, há muita angústia até, eu acho que isso é importante deixar de lado, porque é um obstáculo de vez em quando muito frustrante para as pessoas que estão a fazer música”, explicou o músico, salientando a importância das comunidades locais, “essenciais para tudo”. “Até como se viu agora, numa circunstância mais triste que foi das tempestades e dos danos. Penso que a mobilização e o enquadramento local das bandas é super importante”, disse.
“Super doloroso” decidir quem fica
Já passaram 40 jovens artistas pelas mãos de Filipe Rocha, um dos mentores do projeto, e o próximo ‘Omnilab’ “já está a ser preparado”.
A última residência artística é encarada por Filipe Rocha como positiva, com a construção pelos artistas de um “bom ambiente”, destacando a ‘maturidade’ no final da semana. Os jovens “saem com muita informação e mais crescidos, musicalmente falando”, revelou, lembrando que os participantes têm entre 14 e 21 anos.
É, pois, “super doloroso” decidir quem fica. “Os nossos critérios de escolha têm muito a ver com sensibilidade, com o que nós sentimos quando ouvimos e quando começamos a tentar imaginar um coletivo e tentar perceber se ele funciona ou não. Nós temos isso em mente quando estamos a escolher, quando estamos a ouvir as músicas que eles enviam”, explicou Filipe Rocha ao Diário de Leiria.
Os jovens artistas gravaram o habitual original, criado durante a residência. Para a criação de uma versão alternativa de uma música já existente, escolheram ‘Tan Line’, da artista leiriense Lisa Sereno. Desta vez, o projeto contou com participações de artistas naturais de fora da região, um dos jovens veio de Lisboa e outro do Montijo.
O próximo ‘Omnilab’ “já está a ser preparado”, diz-nos ainda Filipe Rocha, saindo para inscrições “no final do verão”. Refletindo sobre o projeto e pensando sobre o futuro, o coordenador reforça que é um projeto que “cada vez faz mais sentido”.
Estando prestes a fechar o segundo ciclo de ‘Omnilab’, que é estruturado em ciclos de 4 edições, Filipe Rocha esclareceu também que o próximo objetivo é juntar este segundo ciclo e replicar o espetáculo dos primeiros 4 ‘Omnilab’. Estes espetáculos têm o objetivo de criar uma “continuidade e uma razão de ser, uma coisa que faça sentido”.








