Última Hora

Antes Que Seja Tarde

Abril 16, 2026 . 20:27
Opinião: "Aproveitar a vida não é viver em festa permanente, nem ignorar responsabilidades. Aproveitar a vida é estar presente. É cuidar das relações enquanto elas existem. É dizer o essencial sem esperar pela ocasião perfeita. Porque a ocasião perfeita raramente chega".

Não me considero velho. Ainda assim, já fui a funerais suficientes para reconhecer um padrão inquietante. Depois da despedida, entre abraços contidos e silêncios pesados, a conversa repete-se quase sempre: temos de marcar um café, um almoço, qualquer coisa. Palavras ditas com boa intenção, mas empurradas para um amanhã que, tantas vezes, nunca chega. Não por falta de afeto, mas porque acreditamos, ingenuamente, que haverá sempre tempo.
A vida corre. Os dias enchem-se de afazeres, compromissos e responsabilidades que parecem sempre mais importantes. Não por maldade. Não por desleixo. Apenas porque vamos adiando. E quando damos conta, já é tarde. Culpa? Talvez de ninguém. Ou talvez de todos nós, um pouco de cada vez, à medida que deixamos que o urgente engula o essencial.
Nos últimos tempos, li palavras de despedida que não se escrevem por vaidade nem por dramatismo. Escrevem-se quando já não há tempo. Quando tudo o que ficou por dizer pesa mais do que aquilo que foi dito. O que se escreve depois já não muda a história — serve apenas para aliviar a alma de quem fica, tentando dar sentido ao que já não pode ser corrigido. É um exercício humano, mas doloroso, porque revela tudo aquilo que poderia ter sido diferente.
É isso que custa aceitar: muitas das dores que carregamos no fim podiam ter sido evitadas no meio do caminho. Um telefonema feito. Uma conversa tida. Um pedido de perdão. Um abraço dado a tempo. Pequenos gestos que parecem insignificantes no dia a dia, mas que fazem toda a diferença quando já não é possível voltar atrás. Não são grandes feitos que faltam; são presenças simples que nunca chegaram a acontecer.
Aproveitar a vida não é viver em festa permanente, nem ignorar responsabilidades. Aproveitar a vida é estar presente. É cuidar das relações enquanto elas existem. É dizer o essencial sem esperar pela ocasião perfeita. Porque a ocasião perfeita raramente chega. Chega apenas o agora — e o agora é sempre suficiente para amar, reconciliar ou simplesmente estar, se tivermos coragem de o escolher.
Talvez o maior engano seja acreditarmos que haverá sempre outra oportunidade, outro momento, outra conversa. A verdade é que muitas vezes não há. Há apenas escolhas feitas ou adiadas.
Lembro-me bem da iniciativa Mais K Abraço, quando andámos pelas ruas de Leiria a distribuir abraços gratuitos. O que mais me marcou não foi quem recusou, mas quem parou. Pessoas que precisavam de um abraço, de dois minutos de conversa, de serem vistas. Não devia ser preciso um evento, nem um cartaz, nem um pretexto. Devia ser uma decisão diária, pessoal, tomada dentro de cada casa, de cada família, de cada relação.
E isto não diz respeito apenas à morte. Diz respeito a tudo o que deixamos morrer aos poucos: relações, amizades, ligações familiares, palavras que ficam presas por orgulho, medo ou distração. Não é o fim que dói mais — é o que ficou por viver antes dele.
Talvez o desafio seja simples e exigente ao mesmo tempo: não esperar que a vida nos acorde pela perda. Ligar hoje. Estar hoje. Cuidar hoje. Não porque somos perfeitos, mas porque estamos vivos.
“Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio.”
Mas isto sou eu.

Abril 16, 2026 . 20:27

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