
Câmara de Leiria destaca “figura maior da cultura portuguesa”
A Câmara de Leiria manifestou hoje profundo pesar pela morte de José Luís Tinoco, compositor, artista plástico e arquiteto natural do concelho, uma “figura maior da cultura portuguesa”.
“(…) José Luís Tinoco foi uma figura maior da cultura portuguesa e um dos mais conceituados nomes da cultura leiriense, distinguindo-se por um percurso absolutamente singular nas áreas da arquitetura, da pintura, da ilustração, do desenho, das artes gráficas e da música”, lê-se numa nota de pesar enviada pelo Município.
Na nota, a autarquia referiu que José Luís Tinoco, que morreu na noite de quarta-feira, em Lisboa, aos 93 anos, afirmou-se, ao longo de várias décadas, “como um criador de excecional densidade intelectual e artística, pautando o seu percurso por uma permanente inquietação criativa, por uma exigência invulgar e por uma profunda recusa do fácil”.
“A sua obra, plural e marcante, deixou contributos relevantes em diferentes domínios da criação contemporânea, da arquitetura à pintura, da ilustração ao cartoon, da conceção gráfica à composição musical, sempre com uma linguagem própria e um pensamento independente”.
Segundo a Câmara, na arquitetura, na pintura e nas artes visuais, José Luís Tinoco “construiu um percurso de reconhecido mérito, que o afirmou como um autor de referência no panorama cultural português”, realçando que “também na música deixou uma marca indelével, como compositor e instrumentista, sendo autor de obras incontornáveis da cultura portuguesa”.
Em 2016, José Luís Tinoco foi agraciado pelo Município de Leiria com a Medalha de Prata da Cidade, “em reconhecimento pelo seu percurso de excelência e pelo prestígio que conferiu a Leiria”.
Seis anos depois, por ocasião do seu 90.º aniversário, voltou a ser homenageado pela autarquia, salientando-se na ocasião “a dimensão excecional de um criador natural de Leiria, cuja vida foi pautada pela aprendizagem constante, pela insatisfação criativa e por uma grande exigência na procura da qualidade do seu trabalho”.
“Com o falecimento de José Luís Tinoco, Leiria perde um dos seus mais ilustres filhos e a cultura portuguesa perde um criador notável, de obra vasta, original e duradoura, cujo legado permanecerá como referência para as gerações futuras”, adiantou o Município de Leiria, que se associa “ao luto da família e amigos, endereçando-lhes as mais sentidas condolências”.
José Luís Tinoco nasceu em Leiria, em 27 de dezembro de 1932, num meio cultural privilegiado, como reconhecia, raro para a época. O pai era reitor do liceu, diretor do Círculo de Cultura Musical e do Museu da Cidade; a mãe, Maria Carlota Tinoco, pianista, pedagoga, concertista.
Pianista, criador de canções como “No teu poema”, “Um homem na cidade” e “Madrugada”, José Luís Tinoco foi também o músico de jazz que fez parte das primeiras formações do Hot Clube de Portugal, o poeta que publicou "Perseguição dos dias", o compositor que Bernardo Sassetti, João Paulo Esteves da Silva, Mário Laginha, Ivan Lins e Carlos do Carmo abordaram vezes sem conta, e cuja música detém “a qualidade dos grandes ‘standards’”, como reconhecem os seus intérpretes, num nível equiparável a Cole Porter ou Tom Jobim.
A sua marca, porém, não se limita à música. Estende-se à arquitetura, à ilustração, ao cartoon, à fotoanimação, aos figurinos e cenários para teatro, ópera e bailado, ao design e às artes gráficas.
Concebeu mobiliário, espaços interiores, desenhou capas para livros de autores como Alfred Jarry e José Rodrigues Miguéis, assinou emissões filatélicas dos CTT.
Na década de 1980, lançou as bases para o Levantamento da Arte Portuguesa Contemporânea, que dirigiu para a então Secretaria de Estado da Cultura.
José Luís Tinoco é também o arquiteto do plano de urbanização do bairro do Rego, em Lisboa, que a burocracia e antigas gestões municipais não deixaram concretizar; o arquiteto da escola do Porto, com o curso concluído na capital, quase de imediato nomeado para o Prémio Valmor pelos traços contemporâneos de uma moradia no Restelo, num concurso que acabou cancelado muito antes de Abril.
Em 2014, recebeu o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores, e o Teatro S. Luiz, em Lisboa, abriu a temporada com o espetáculo de homenagem “Os lados do mar - José Luís Tinoco”, dirigido por Laurent Filipe, com a participação de músicos como Carlos do Carmo, Carminho, Camané, André Sarbib e Pedro Jóia.
Em 2021, a RTP estreou o documentário "Vida e obra de José Luís Tinoco”, de Laurent Filipe, disponível na plataforma RTP Play, que atravessa as diferentes expressões da sua obra.








