Quando o custo dos combustíveis relembra as vantagens do teletrabalho
Lembram-se da pandemia? Quando tivemos de passar, rapidamente e à força, para modelos de trabalho à distância? Era uma conversa antiga: a necessidade de flexibilizar o modo como se trabalha, especialmente no modo como isso afeta os sistemas de transporte. Sabíamos há muito tempo que essa flexibilização iria aliviar em muito a carga que as infraestruturas têm, reduzir os congestionamentos e as emissões e muito mais. Tendo em conta a nossa grande dependência do automóvel privado, quase sempre em viagens com apenas um passageiro, estamos a falar de impactos globais consideráveis, sejam económicos ou ambientais. A pandemia mostrou que era possível adotar novos sistemas híbridos de trabalho. Agora é ainda mais fácil, pois temos cada vez mais e melhores ferramentas para nos apoiar nisto.
No entanto, as empresas e instituições voltaram atrás. Apesar das inúmeras vantagens e soluções que temos ao nosso dispor, voltou-se ao antigamente. Muitas empresas, com uma visão afunilada, exigiram o trabalho presencial a 100%, em funções em que isso não traz qualquer valor acrescentado, simplesmente como uma ferramenta arcaica de controlo. Não se aproveitou a oportunidade para transformar processos e a própria organização do trabalho em modelos mais sustentáveis, produtivos e equilibrados na relação entre o trabalho e a vida pessoal. Posso falar disto na primeira pessoa, pois trabalho remotamente há quase 10 anos. E trabalho com produtos físicos, quase sempre jogos analógicos, para serem experimentados presencialmente. Nem isso é uma limitação.
Agora que os preços dos combustíveis dispararam e entramos numa nova crise energética, voltam a surgir recomendações para apostar no teletrabalho. Se tivéssemos já implementado essas modalidades de forma mais ampla, a nossa resiliência coletiva perante estes fenómenos seria bem maior. Voltamos a correr atrás do prejuízo, criando disrupção e fazendo adaptações sem a devida preparação. As empresas e instituições com mais visão entendem as vantagens dos modelos de trabalho híbrido; os outros, provavelmente, só vão perceber se forem obrigados ou incentivados a isso. Por isso, não será de estranhar que surjam novamente políticas de limitação do trabalho presencial e incentivos ao trabalho remoto. Justificam-se políticas neste assunto, pois há ganhos coletivos consideráveis. A qualidade do ar e do ambiente em geral melhora significativamente. Não precisamos de tantas infraestruturas rodoviárias e importamos menos combustíveis fósseis. Ganha-se tempo em todos os sentidos.
Infelizmente, neste assunto, parece que só aprendemos à força, quando o incentivo é negativo e nos vai ao bolso. A alternativa seria implementar sistemas de incentivos positivos, tais como os que aplicamos nos jogos, quer sejam ganhos materiais, quer seja a certeza de que estamos a contribuir para um bem coletivo superior.





