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Continuam a faltar palavras para explicar o que aconteceu há três meses

Faz hoje três meses que Leiria acordava para uma das piores catástrofes que há memória por terras de D. Dinis.

Tinha acabado de fechar mais uma edição do Diário de Leiria, pouco depois da hora de jantar, e entre a equipa já se trocavam mensagens de uma tempestade que estava a caminho de Portugal. As previsões apontavam para que entrasse na zona da Figueira da Foz, mas à medida que as horas iam passando, o cenário que poderia tocar terra em Leiria era cada vez mais provável.

E foi o que aconteceu. Na madrugada de 28 de janeiro, Leiria foi fustigada por uma tempestade sem paralelo. Em casa, colocámos móveis e artigos pesados atrás da porta para evitar que o vento entrasse. Não tinha pedido licença para entrar no último andar do prédio, onde destruiu o telhado, partiu a claraboia e deixou entrar estilhaços de tudo e mais alguma coisa. Estava agora à porta da minha casa, no rés do chão. O som era ensurdecedor, incomparável a qualquer coisa que tenha ouvido na minha vida. Entre pacificar os receios de uma criança de 10 anos e ajudar a combater a fúria do vento passaram cerca de três horas. Quando finalmente se fez silêncio, as guardas baixaram e sucumbimos ao cansaço. A manhã trouxe o que temíamos. O carro destruído por placas de zinco que não sabemos de onde surgiram. Foi perda total. Carro sim carro não destruído, árvores tombadas para os prédios e em cima de carros, lixo e mais lixo nas ruas, postes de energia no chão. Isto registado sem sair de casa. Pegámos no carro velhinho do meu pai que sofreu ‘ferimentos leves’ e fomos ver o que a tempestade destruiu. E o que encontrámos ainda é difícil de descrever, e eu que lido com palavras todos os dias.

O meu testemunho é um entre milhares que vivenciaram a depressão Kristin. Faz hoje três meses que Leiria acordava para uma das piores catástrofes que há memória por terras de D. Dinis. Carros virados de pernas para o ar, telhados destelhados, casas que ‘voaram’, placas de zinco, painéis solares, pedaços de coberturas transportadas centenas de metros do local de origem, árvores centenárias tombadas, gruas caídas sobre prédios habitacionais, fábricas destruídas, negócios perdidos. A lista é extensa, os danos gigantescos, alguns deles irreparáveis, com prejuízos de milhares e milhares de euros, a perda de vidas e muitas feridas por sarar.

Leiria e os restantes concelhos, sobretudo da zona centro e norte do distrito, ficaram sem luz, água e comunicações e com uma destruição comparável a um cenário de guerra, como descreveram os autarcas, e para o qual tinha que ser dada resposta imediata.

Centenas de pessoas foram para o terreno para prestar apoio às populações. Depressa o voluntariado disse ‘presente’. Subiu-se aos telhados, limparam-se as ruas e vias de acesso, muito foi feito em poucas horas. Mas, depois vieram as cheias e o território ficou ainda mais vulnerável.

Três meses depois, o que aconteceu não está apenas na memória das populações, está ainda bem presente no dia a dia. Nos telhados que ainda estão a ser recuperados, nas árvores que ainda estão a ser removidas, nas estradas que estão a ser reparadas, no restabelecimento de comunicações. Uma recuperação muito difícil, que vai demorar tempo. A depressão Kristin levou tudo, menos a vontade de lutar pelo local que se escolheu para viver e trabalhar.

Abril 28, 2026 . 13:30

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