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Três meses depois, a família Mendes luta para voltar a pôr a casa de pé

Três meses depois da passagem da depressão Kristin, a família Mendes, em Colmeias, ainda procura forma de voltar a reerguer a casa que ficou totalmente destruída. Veja o vídeo.

“Eu não conheço a minha casa”. As palavras saem-lhe quase como um desabafo automático enquanto percorre com o olhar o que resta da sua habitação. Onde antes havia um teto, há agora uma estrutura exposta, com vigas à vista.

Três meses depois da passagem da depressão Kristin, os sinais de destruição ainda permanecem e é com o pouco que restou que a família Mendes tenta seguir em frente.

Quando a equipa de reportagem do Diário de Leiria chegou a casa da família, em Colmeias, Leiria, Maria Madalena Azevedo estava de mangas arregaçadas a apanhar do chão pedaços de madeira da cobertura, resultado dos primeiros trabalhos de demolição iniciados pelo filho.

No interior, é difícil identificar o que foi cada divisão antes da fatídica madrugada de 28 de janeiro. Na sala, o único elemento que resistiu foi o fogão de sala, agora isolado no espaço com uma escada mais à frente. À volta, as divisões estão praticamente vazias, com paredes marcadas pela força da tempestade e zonas onde o céu ainda substitui o teto.

Na cozinha, o cenário é ainda mais evidente. Nem a chaminé resistiu. Sobrou pouco mais do que uma janela para a rua. No chão, as pedras e um andaime montado mostram que a destruição deu lugar ao início de uma tentativa de reconstrução.

É ali que se percebe também a dimensão do esforço de Ricardo Mendes, o filho de Maria Madalena, que começou a deitar abaixo o que já não tinha salvação, numa corrida contra o tempo para voltar a erguer a casa que lhe foi deixada pelo pai.

Por muito que não queira reviver a madrugada que lhe ‘roubou’ o teto, há memórias que não se derrubam. O som das telhas a levantar voo, como se tivessem sido arrancadas de uma só vez, continua preso na memória de Maria Madalena Azevedo, de 64 anos.

Ao nosso jornal, recordou o momento em que, ainda às escuras, saiu do quarto com a nora e neta de dois anos, sem saber ao certo para onde ir. Refugiaram-se num canto da casa, um dos poucos que resistiu o suficiente para as proteger.

A depressão Kristin passou, mas ali nada voltou ao que era. “Estamos completamente na rua. A tempestade levou-nos tudo, a chuva levou-nos tudo”, lamentou Ricardo Mendes.

Os prejuízos ultrapassam os 100 mil euros e só a cobertura está orçamentada em mais de de 49 mil euros. “Não se aproveita nada”, garantiu.

O telhado, colocado há cerca de uma década, ficou destruído e as lonas de proteção só chegaram dois meses após a tempestade, tempo mais do que suficiente para a chuva agravar ainda mais os estragos.

Apesar da habitação ter seguro, a resposta tarda. “Liguei ontem [quarta-feira] e dizem três a quatro meses para uma resposta. Já me disseram que talvez só paguem a parte da cobertura”, adiantou.

Sem alternativa, a família foi obrigada a reorganizar-se no pátio, onde a destruição não é menos visível.

É numa cozinha exterior de pequenas dimensões que Maria Madalena dorme, cozinha e lava a loiça. “Durmo aqui nesta cama, cozinho aqui e faço tudo aqui”, explicou, apontando para uma caixa ao fundo da cama onde guarda a roupa.

Já Ricardo, a companheira, Inês e a filha, Leonor, de dois anos, dormem na cave, o único espaço minimamente resguardado. É também ali que fazem as refeições e tentam manter alguma normalidade.

 

Casa estava a ser remodelada

A casa, com mais de 80 anos, estava a ser remodelada aos poucos, muitas vezes pelas próprias mãos de Ricardo que, garantiu, não tem medo de trabalhar. “Trabalho na construção desde os 17 anos. Tudo isto foi sendo feito conforme as possibilidades”, explicou.

Ainda há poucos meses, tinha investido cerca de seis mil euros numa casa de banho nova e preparava-se para continuar as melhorias.

Agora, vê-se obrigado a demolir para poder recomeçar e voltar a construir, sem saber como. Só o ferro necessário para a estrutura ronda os dois mil euros. As telhas custam cerca de 500 euros por palete.

Se recorresse a um empreiteiro, detalhou, só a demolição custaria cerca de quatro mil euros. “Prefiro que me deem material. Trabalho não me assusta”, salientou.

Ao fim de três meses de “suor e muito trabalho”, já conseguiu comprar as primeiras vigas para ajudar a reerguer a estrutura da habitação.

Enquanto isso, o tempo vai passando e a família sente que ficou para trás. “Estamos parados no tempo”, admitiu Ricardo Mendes, sublinhando que não é de dinheiro que necessitam, mas de materiais de construção e “alguma mão de obra” que permita acelerar a reconstrução.

“Eu não posso permitir de maneira alguma chegar a um próximo inverno e ficar com a casa assim”, alertou, recusando-se a abandonar a casa e a baixar os braços.

No meio do que descrevem como “caos”, Maria Madalena procura formas de ocupar os seus dias. Cuida das ovelhas, trata do quintal e cultiva legumes e hortícolas. “Vou-me entretendo. Quando venho para a terra, alivio a cabeça”, contou.

E é na presença da pequena Leonor que a família encontra algum “alento” e força para continuar a lutar

Abril 29, 2026 . 08:00

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