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Entre fornos e tradição: Turismo Industrial valoriza a cultura vidreira

Num concelho em que o vidro é um produto de excelência, o Turismo Industrial transforma a tradição produtiva local num fator de atração, levando públicos diversos a valorizar este património cultural marinhense.

A Capital do Vidro, onde a identidade industrial está profundamente enraizada na cultura, o Turismo Industrial tem vindo a afirmar-se como uma forma de aproximar o público do saber-fazer local na Marinha Grande. Mais do que visitar fábricas, trata-se de entrar nos bastidores da produção, compreender técnicas e contactar diretamente com quem mantém vivas tradições que marcaram o desenvolvimento do concelho. 

É neste contexto que surge o estúdio da PoeirasGlass, fundado por Alfredo Poeiras e Artur Rodrigues, cuja história pessoal se cruza com a própria evolução recente deste tipo de turismo. “O estúdio sempre foi um sonho a partir dos vinte e poucos anos, e que demorou muito tempo, demasiado tempo a concretizar”, recorda. A concretização só chegou mais tarde, já depois da reforma, num momento de mudança pessoal e profissional. Sem a atividade que mantinha como formador no CENCAL e afastado do ritmo da indústria, acabou por encontrar no projeto uma nova direção. 

A criação da empresa, em 2012, surge também de uma conjuntura familiar e de oportunidade. Com o genro, Artur Rodrigues, desempregado e já com equipamentos acumulados ao longo de anos de trabalho e participação em feiras, algumas até internacionais, avançaram para a criação de um estúdio que começou por percorrer o país, “de norte a sul” em demonstrações de artesanato. Um ano depois, estabeleceram-se definitivamen­te na Marinha Grande, primei­ro com uma loja e, mais tarde, com o espaço atual, inaugurado em 2014 após concurso público. 

Hoje, o estúdio representa também uma resistência. “Na Marinha Grande somos o que resta”, afirma, referindo-se ao número reduzido de artesãos do vidro ainda em atividade no território. A produção manual, ao contrário da industrial, vive de ritmos mais irregulares e de um mercado limitado, o que torna ainda mais relevante a ligação ao público. 

É precisamente aí que entra o Turismo Industrial. O conceito refere-se à abertura das unidades produtivas a visitantes, permitindo conhecer processos, técnicas e tecnologias através de visitas organizadas. Num território cuja história está ligada à indústria do vidro desde o século XVIII, com a instalação da Real Fábrica de Vidros, esta vertente turística surge como uma extensão natural da sua identidade. 

Na prática, contudo, a experiência nem sempre corresponde às expectativas. Para Alfredo Poeiras, o impacto destas iniciativas depende fortemente do apoio institucional: “Sem o envolvimento do município, mais valia estarmos quietos.” Destaca, ainda assim, o papel positivo da autarquia na dinamização de atividades, muitas delas dirigidas ao público mais jovem. “Ainda agora tivemos mais de 100 pessoas, a maior parte miúdos, a soprar, a fazer um balão de vidro […] e não tinha custos para as pessoas”, explica, sublinhando o efeito do financiamento parcial dessas ações. 

Estas experiências práticas, como soprar vidro ou criar peças simples, acabam por ser um dos maiores atrativos. Apesar de inicialmente pensadas para crianças e estudantes, rapidamente despertam o interesse de públicos mais amplos: “Alguns pais também queriam soprar […] não entrou lá ninguém que quisesse soprar que não soprasse o vidro”. 

O estúdio recebe também visitantes estrangeiros, sobretudo através de programas educativos como o Erasmus, embora nem sempre seja possível garantir demonstrações, devido aos custos e exigências técnicas do processo. Ainda assim, o feedback é descrito como “extraordinário”, com visitantes a registarem e partilharem a experiência. 

Ainda assim, eventos integrados na Agenda Nacional do Turismo Industrial, promovida pela Rede Portuguesa do Turismo Industrial e que, em 2026, decorreu entre 21 de março e 4 de abril, continuam a trazer visibilidade ao território. Durante esse período, a cidade ganha nova dinâmica, com maior afluência de visitantes e impacto também no alojamento local. 

Para o presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande, Paulo Vicente, esta aposta iniciada em 2013 resulta de uma estratégia clara de valorização do território. O autarca sublinha que o turismo industrial permite “articular dois setores distintos, a indústria e o turismo”, transformando a tradição produtiva local num fator de atração. Além de contribuir para a economia, através da dinamização do comércio, restauração e serviços, destaca também o seu papel na afirmação identitária. “Valoriza atividades que fazem parte da história e do presente do concelho”, como o vidro e os moldes. 

Entre as iniciativas promovidas, aponta programas como ‘À Descoberta do Turismo Industrial’, que aproximam o público da realidade produtiva, e espaços como o Museu do Vidro, que considera um “ex libris” do concelho. Ainda assim, refere que são muitas vezes as experiências em contexto real, como o contacto direto com artesãos ou a observação de fábricas em laboração, que mais marcam quem visita. 

A integração na rede nacional, em 2020, veio reforçar essa estratégia, aumentando a visibilidade da Marinha Grande e permitindo, ao mesmo tempo, o trabalho em conjunto com outros territórios. Para o município, trata-se de um caminho que procura consolidar o turismo industrial como um produto diferenciador, capaz de atrair públicos diversos, desde turistas culturais e famílias a estudantes e profissionais especializados, e de afirmar, dentro e fora do país, uma identidade moldada entre tradição e inovação.  

Maio 14, 2026 . 13:00

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