
Sem pinhal, famílias da Marinha Grande reinventam o Dia da Espiga
O Dia da Espiga sempre foi mais do que uma tradição, é um ritual coletivo que cruza gerações, memórias e a forte ligação ao pinhal e a natureza na Marinha Grande. Mas, este ano, depois da passagem da depressão Kristin, o cenário mudou drasticamente: muitos dos espaços onde famílias inteiras estendiam a toalha desapareceram ou ficaram inutilizados.
Durante décadas, Hernâni Rosa, de 64 anos, manteve viva esta tradição com um grupo de cerca de 30 pessoas. “O Dia da Espiga é o convívio entre os familiares e amigos”, explica. O destino era quase sempre o mesmo: “já fazemos esses piqueniques há muitos anos, para o lado da Praia Velha”. Outros pontos emblemáticos, como o Tremelgo ou o parque da Portela, também faziam parte das escolhas de muitos marinhenses. “Iam as famílias, uns no comboio de lata, outros a pé”, recorda.
A tradição, conta, vem de longe, muito antes de ser feriado municipal. “Não tenho noção de como começou na minha família, mas segundo o que o meu pai me contava, já vinha dos pais dele, no século XIX”. Inicialmente ligada à celebração da primavera, acabou por ganhar nova dimensão quando, em 1964, a autarquia instituiu o feriado da Quinta-feira da Ascensão.
No centro de tudo estavam os pinhais e os parques de merendas, que se tornaram espaços de encontro e identidade das famílias. “Reunia-se tudo à volta da toalha, no meio do pinhal, com familiares que se calhar não via um ano inteiro”. Entre jogos, conversas e partilhas, não faltavam os clássicos: “o arroz de ervilhas com coelho e os pastéis de bacalhau, e claro que um bom vinho também não”. Havia ainda rituais próprios, como o de apanhar “a espiga”. “Levávamos de casa um ramo de oliveira, uma espiga de milho, e por lá apanhávamos os malmequeres, ramo que guardávamos de um ano para o outro”, num gesto simbólico que reforçava o ciclo da tradição.
Hoje, porém, o cenário é de incerteza. Na Marinha Grande, a destruição provocada pela depressão Kristin veio agravar um território já fragilizado pelos incêndios de 2017, deixando muitos dos pinhais e parques de merendas impraticáveis ou destruídos. Sem os espaços que sempre deram sentido ao convívio e à celebração, várias famílias veem-se obrigadas a reinventar a tradição.
É o caso da família Rosa, que este ano vai trocar o pinhal pelo espaço doméstico. O habitual piquenique ao ar livre e no seio da natureza dá lugar a um encontro mais contido, feito “em casa”, numa tentativa de não deixar cair um costume com gerações. “Esta é uma tentativa de juntar a família e não perder esta tradição”, explica. Ainda assim, reconhece que a mudança altera profundamente o espírito do dia: “Este ano nem umas brincadeiras ou uns jogos podemos fazer, ali no pátio, se a gente cai aleija-se”, lamenta, entre um riso que não esconde a tristeza.
A questão que se impõe é inevitável: estará esta tradição em risco? Hernâni Rosa não esconde o pessimismo. “Vamos perder (esta tradição). Com a falta do pinhal, sim. As pessoas querem é ir para o pinhal, para as praias, para conviver. Não há, vamos para onde?”. Sem o pinhal e sem a liberdade dos espaços abertos, o Dia da Espiga mantém-se, mas longe do cenário que durante décadas o definiu.
As memórias contrastam com o presente. Hernâni Rosa recorda, por exemplo, um piquenique na Fonte das Canas, com toda a família a brincar junto ao mar, ou outro, mais perto de casa, “no pinhal das Trutas”, onde até “as solteiras começaram a jogar futebol”.
Agora, o futuro parece distante. “Vai ser difícil. Daqui a quantos anos teremos pinhal de novo? Não sei explicar, mas sei que não vai ser nem no meu tempo nem no dos meus netos”, lamenta. E conclui, com resignação: “Nunca vai ser como era”.
À semelhança do que descreve Hernâni Rosa, também para a família Norte Pinto o Dia da Espiga sempre foi sinónimo de encontro e partilha no pinhal da Marinha Grande. Entre memórias de infância, mesas ocupadas desde madrugada e parques de merendas cheios, as histórias cruzam-se num ponto comum: um dia em que a cidade parava para conviver, e que hoje, sem esses espaços, se torna cada vez mais difícil de recriar.
Para Fernanda Norte, de 61 anos, as memórias do Dia da Espiga começam cedo e estão profundamente ligadas à infância e à dinâmica familiar. Recorda as deslocações de mota com o pai, que levava o farnel cuidadosamente preparado, “atado atrás da motorizada”. Um desses episódios ficou-lhe particularmente marcado. “Num solavanco, o farnel virou-se, entornou a comida e ficámos os dois espetados no pinhal”, recorda. Mais tarde, essas vivências deram lugar a encontros mais organizados no pinhal, onde a família e os amigos se reuniam em torno da comida feita em casa. A mãe, conta, era “perita na feijoada e toda a gente gostava”, a que se juntavam os habituais pastéis de bacalhau, pão e vinho.
Mais do que a comida, era o reencontro que definia o dia. Vítor Pinto, natural de Vilarinho da Castanheira (Bragança), destaca essa dimensão social, sublinhando que ali “encontravam-se pessoas que já não se viam há muitos anos”. Apesar de não ser natural da Marinha Grande, acabou por integrar facilmente a tradição. “Tinha que alinhar, gostava de ir e de me encontrar com o pessoal”, lembra.
Os locais variavam ao longo do tempo, acompanhando gerações e rotinas, do Tremelgo à Ponte Nova, passando pelas Paredes de Vitória ou pelo Parque de Merendas da Portela. A filha, Débora Pinto, de 27 anos, recorda um ambiente particularmente vivido neste último espaço, onde o dia começava cedo e rapidamente se enchia. “Se não chegasses lá de madrugada para ocupar a mesa, já não havia nada, os parques estavam sempre ao barrote”. Para além do convívio espontâneo, havia também uma componente organizada, com “corrida de sacos”, música e atividades que envolviam todas as idades.
Mesmo quando não havia infraestruturas, as famílias adaptavam-se. “Se não houvesse mesas, levávamos a mesa e as cadeiras, ou levávamos mantas”, explica Débora Pinto. O pinhal tornava-se, assim, um espaço de liberdade, onde “estávamos na natureza” e onde “todas as pessoas acabavam por alinhar, não eram só as crianças”. O convívio ultrapassava facilmente o grupo inicial: “oferecíamos comida e bebida uns aos outros”, recorda Fernanda Norte, descrevendo um ambiente onde bastava cruzar-se com alguém conhecido para surgir o convite: “olha, senta-te aqui, bebe um copo!”.
Nos últimos anos, porém, essa realidade começou a esbater-se. A pandemia da covid-19, em 2021, quebrou rotinas e afastou muitas destas dinâmicas. “Para mim, já há muito tempo que não há Quinta-feira da Ascensão”, admite a marinhense, explicando que deixou de participar quando também deixou de ter com quem partilhar o dia. “Deixei de ter convívio, deixei de ter com quem o fazer”.
Agora, com a destruição dos pinhais e dos parques de merendas, a mudança torna-se ainda mais evidente. Mesmo para quem já não vivia a tradição com a mesma intensidade, o impacto é claro. “Não há pinhal. Nem sei onde é que o pessoal vai”, diz Fernanda Norte, apontando para alternativas que não substituem o original. “Há muita gente que provavelmente vai fazer em casa, mas nunca vai ser a mesma coisa”, lamenta.
A perceção é de que esta transformação poderá ter efeitos duradouros. “Vai afetar, e muito”, acredita, lembrando sobretudo as gerações mais velhas, para quem estes encontros eram um hábito enraizado e acessível. “Iam de bicicleta, de motorizada, era ali pertinho. Agora vão para onde?”.







