
Adão e Silva: “Leiria foi o rosto da destruição”
O ex-ministro da Cultura Pedro Adão e Silva afirmou na sexta-feira, em Leiria, que a destruição provocada pela depressão Kristin revelou fragilidades estruturais profundas do país, mas também uma capacidade coletiva de solidariedade e resistência que considera decisiva para enfrentar o futuro.
Convidado para discursar na sessão solene do Dia do Município, Adão e Silva abordou as consequências do mau tempo que atingiu o concelho. “Leiria foi, porventura como nenhuma outra região do país, o rosto da destruição provocada pelas intempéries deste inverno”, afirmou perante uma sala cheia, sublinhando, contudo, que a resposta da comunidade também revelou “capacidades individuais e coletivas” que muitos desconheciam.
“A sensibilidade face ao sofrimento do outro, a solidariedade para reerguer o território e a determinação de caráter de quem enfrenta tragédias” estiveram, segundo o sociólogo, entre as principais lições deixadas pela tempestade.
Ao longo do discurso, Pedro Adão e Silva traçou uma leitura política e social das consequências das alterações climáticas em Portugal, defendendo que os fenómenos extremos não podem ser vistos como acontecimentos isolados. Citando dados sobre prejuízos causados por incêndios, cheias e tempestades, afirmou que Portugal passou de uma média anual de 70 milhões de euros em danos, entre 1980 e o final do século XX, para cerca de 630 milhões de euros por ano desde 2020.
“Isto suscita uma questão: porque é que isto acontece entre nós desta forma?”, questionou, atribuindo a situação à conjugação entre vulnerabilidade geográfica, décadas de desordenamento do território e incapacidade política de responder às alterações climáticas.
O comentador político foi particularmente duro na análise ao ordenamento do território, considerando que “em nenhuma outra área a democracia falhou tanto”.
Adão e Silva valorizou ainda a reabertura de equipamentos culturais no concelho quatro meses após a devastação causada pelo mau tempo, apontando o regresso do Castelo de Leiria e da Villa Portela como sinais de esperança e reconstrução coletiva.
“A cultura é uma prioridade”, defendeu, considerando que espaços culturais representam simultaneamente memória coletiva e capacidade de imaginar o futuro. “Precisamos preservar espaços de aparente inutilidade que são, afinal, aqueles que fazem com que a vida mereça ser vivida”, afirmou.
Na parte final da intervenção, Pedro Adão e Silva fez uma reflexão mais ampla sobre os 52 anos da democracia portuguesa, sublinhando os progressos sociais e económicos alcançados desde o 25 de Abril, desde a redução do analfabetismo à melhoria dos indicadores de pobreza, educação e mortalidade infantil.
Apesar disso, alertou para os riscos da nostalgia e da desvalorização do percurso coletivo do país. “Há uma grande diferença entre reconhecer o caminho percorrido e alimentar nostalgia sobre um passado sombrio que devemos deixar para trás”, afirmou.
O discurso terminou com uma mensagem dirigida diretamente a Leiria e ao processo de recuperação após a depressão Kristin. “Há um tempo para a dor e para o luto, mas também um tempo para a reflexão crítica”, disse, concluindo que “chegou o tempo da esperança, do optimismo possível e também do realismo”.







