
Nem tudo o vento levou
Numa só madrugada – a de 28 de janeiro – mais de 50 anos de trabalho ficaram em risco devido aos efeitos devastadores da depressão Kristin. Um cenário que se repete em muitas empresas da região, como sabemos, e em particular nas do setor primário, com perdas a diferentes níveis, como relata Amália Duarte, CEO do Grupo Aviliz. Os principais impactos incidem na destruição parcial de instalações, destruição de equipamentos e na perda ou deterioração de animais vivos, o que afeta de forma direta o potencial produtivo, comprometendo a disponibilidade de efetivo para produção, explica a empresária.
Embora tenham passado mais de 100 dias desde aquela madrugada, ainda há muitas coisas que não voltaram ao “normal”. E, como sabemos, foi prolongado o período de “caos”. Logo nos primeiros dias foi a impossibilidade, na maior parte dos casos, de chegar junto dos locais das explorações – nomeadamente pela quantidade de árvores caídas e estradas e caminhos intransitáveis. “Não conseguíamos chegar aos animais. Fomos nós, sem ajudas externas, ‘à unha’, exploração a exploração, que abrimos tudo”, recorda.
Depois, e por um período muito prolongado, as explorações estiveram privadas de eletricidade, situação que condicionou seriamente o seu funcionamento e colocou desafios acrescidos ao bem-estar animal. Para assegurar que os animais continuassem a ser alimentados e tivessem acesso a água, foi necessário recorrer a meios próprios, adquirir um número significativo de geradores — que se somaram aos já existentes — e contar com um esforço extraordinário de toda a equipa.
Atualmente, a situação encontra-se estabilizada, mas o restabelecimento do fornecimento de eletricidade da rede pública em todas as explorações demorou cerca de dois meses. Foi um período marcado por inúmeras dificuldades, como descreve a CEO do Grupo Aviliz: “Desde o acesso condicionado às explorações, devido a estradas e caminhos bloqueados ou danificados, até aos desafios técnicos na ligação dos geradores e abastecimento dos mesmos. Foi necessário improvisar soluções, reforçar cuidados de segurança e gerir uma logística particularmente exigente para distribuir equipamentos por todas as unidades, garantindo, ainda que com limitações, as condições mínimas de alimentação e sobrevivência dos animais”.
Mas, além destas questões operacionais, a tempestade provocou perdas muito significativas de animais vivos nas explorações do Grupo Aviliz. Na avicultura, registou-se a morte de vários milhares de aves, afetando de forma severa o ciclo produtivo. Na suinicultura, perderam-se várias centenas de suínos, com impacto direto no efetivo disponível para produção.
“Estas perdas, resultantes da morte ou deterioração dos animais, comprometem o potencial produtivo do Grupo e implicam atrasos relevantes nos ciclos de produção”, explica Amália Duarte. E, contas feitas, foram mais de 500 mil euros só em animais mortos, além dos prejuízos futuros pelos atrasos na produção. “Achámos que não íamos conseguir superar isto”, confessa.
Vai levar anos até estar tudo recuperado
O setor agropecuário acaba por ser um dos mais afetados pela tempestade e pelas ‘réplicas’ que se lhe seguiram. Por alto, a empresária contabiliza mais de 4,5 milhões de euros de prejuízos. Nos primeiros dias foi preciso cortar árvores, comprar geradores, pôr a fábrica de rações a funcionar, e alimentar os animais. “As nossas equipas de engenheiros zootécnicos alimentaram suínos à mão”, relembra, prevendo que serão precisos dois a três anos para voltar a estar tudo “como antes”.
Além dos seguros, Amália Duarte assume que precisa “de todas as ajudas”: do Estado, crédito com condições favoráveis de período de carência, prazos e spread e destaca medidas como a suspensão da segurança social como favoráveis. É preciso muito dinheiro para conseguir recuperar tudo, num grupo que atinge hoje os 26 milhões de euros de faturação.
Do seu início ‘modesto’, há cinco décadas, com uma pequena produção de pintos do dia, o Grupo tem hoje mais de 30 explorações agropecuárias espalhadas entre Figueira da Foz e Rio Maior, com maior prevalência no concelho de Leiria. Dedicam-se principalmente à avicultura e à suinicultura, embora tenham produção residual de bovinos. No início dos anos 90, apostaram na criação de uma fábrica de rações – inicialmente para responder às necessidades dos próprios animais e rapidamente alargada aos clientes da parte animal. Hoje, a empresa Compostos Liz, SA assume-se como a área de produção mais relevante do Grupo Aviliz, sendo que o mercado internacional corresponde a 10% da atividade. As exportações são na apenas de ração, mas também no setor avícola, nomeadamente ovos embrionados, pintos do dia ou mesmo galinhas poedeiras, principalmente para os PALOP.
Antes da tempestade que ‘varreu’ 50 anos de trabalho em algumas horas, os projetos da empresa passavam por crescimento na avicultura e na suinicultura. Para já, essa expansão ficará em ‘stand by’. “Mas estamos otimistas e vamos à luta”, garante Amália Duarte. |
Perfil
Amália Duarte tem 57 anos, é licenciada em Direito e, desde 2022 que assumiu a liderança do Grupo Aviliz, do qual é CEO. Um cargo que ocupou aquando da reestruturação do Grupo, que é hoje uma SGPS.
A Aviliz, como recorda a sua líder, nasceu num ‘barracão’ ao lado da casa dos pais, em Casalito, Amor, em 1974. Começou com uma pequena produção de pintos do dia, assinalando o primeiro passo no setor avícola. Um início, que, embora simples, permitiu o desenvolvimento de um sólido conhecimento técnico na área da incubação, a criação de relações de confiança com clientes e fornecedores, e o estabelecimento de bases consistentes para um crescimento sustentado, refere aquela responsável.
Amália Duarte é uma das cinco filhas do fundador da empresa, Joaquim Duarte, estando a trabalhar na Aviliz há 30 anos. Hoje, não obstante o seu crescimento, mantém-se uma estrutura familiar. Além da CEO, responsável pela holding e pela internacionalização, há mais família em cada pilar do Grupo, nomeadamente duas das suas irmãs, um cunhado e agora a sua filha, Marta.
Licínia Duarte assume a parte da produção de ração. Lucília Duarte lidera a produção avícola e bovina, e o seu marido, Luís Rosário, é o responsável pela produção suinícola. Marta Lourenço, que assume a gestão de projetos e é a referência do grupo na área das novas tecnologias.







