
Artesãos mostram na Fiaba o valor do trabalho feito à mão
O primeiro cliente do dia ainda não tinha chegado, mas Graça Vieira já estava de mãos ocupadas e andava de um lado para o outro a organizar a banca, certificando-se que tudo estava no lugar.
Enquanto alinhava os cestos e as restantes peças que davam cor ao espaço, preparava-se para responder a uma pergunta que ouve vezes sem conta. “Isto é mesmo papel?”
A surpresa dos visitantes da Feira de Artesanato e Gastronomia da Batalha (Fiaba) repete-se há 15 anos, desde que começou a transformar folhas de papel em utensílios e objetos decorativos.
Em exposição, há de tudo um pouco: cestos, fruteiras, relógios, brincos e presépios. Peças que, à primeira vista, muitos confundem com vime, mas que resultam de um trabalho minucioso que descobriu por acaso através da internet.
“Eu não conhecia. Vi um dia e comecei a fazer a partir daí”, contou a artesã ao nosso jornal, acrescentando que desde então já percorreu inúmeras feiras por todo o país.
A admiração dos visitantes continua a ser uma das maiores recompensas. “Dizem que é muito bonito, gostam do produto, pensam que é vime e ficam admiradas”, referiu.
Já as vendas nem sempre acompanham o interesse. Graça Vieira reconhece que o artesanato “já teve melhores dias” e que nem sempre é fácil explicar o valor das peças que exigem muitas horas de trabalho. “As pessoas gostam, mas as feiras estão mais fracas”, lamentou, reconhecendo no entanto que “esta é uma forma de trabalho que não se vê”.
Entre o artesanato, a costura e os netos, os dias raramente param. Além dos trabalhos em papel, também reaproveita calças de ganga para criar aventais e outras peças.
A poucos metros dali, Alice Oliveira também não consegue imaginar os dias longe do artesanato, mais propriamente da costura. Sentada atrás da banca, ia adiantando mais um dos panos que tinha em mãos, rodeada por aventais, pegas, panos e outros trabalhos de costura feitos à mão.
“Gosto de passar o tempo assim. Já a minha mãe fazia e eu comecei com ela. O bocadinho que não vou à costura parece que não estou bem”, salientou.
As inspirações chegam muitas vezes através da filha, que procura novas ideias no telemóvel. Depois, cabe-lhe adaptá-las e transformá-las em peças únicas.
Há mais de duas décadas que se dedica à atividade. Depois de problemas de saúde que a obrigaram a ser operada às pernas e à coluna, encontrou no artesanato uma forma de se manter ativa. Continua a participar na Fiaba, onde marca presença há cerca de duas décadas, embora admita que já não tem disponibilidade física para percorrer feiras mais distantes. “Veem, veem, mas comprar… a vida está muito difícil, não há dinheiro”, lamentou.
Também Alice Oliveira sente que os hábitos de consumo mudaram ao longo do tempo. “Quando comecei, há 15 ou 20 anos, não levava quase nada para casa. Vendia os aventais todos e pedia-me para fazer mais saquinhos”, recordou.
Em exposição, estavam cestos, fruteiras, candeeiros, relógios, brincos e presépios. À primeira vista parecem feitos de vime. Só um olhar mais atento revela que nasceram de papel . Sobre a banca acumulam-se peças de diferentes tamanhos, todas feitas por si.
Mais adiante, entre cestos de vários tamanhos, Lucília Lucas mantém viva uma arte cada vez mais rara. Aprendeu a trabalhar o vime aos 12 anos e acredita ser atualmente a única pessoa da terra a dedicar-se a este ofício.
A falta de matéria-prima obrigou-a, porém, a reinventar-se. Alguns dos cestos incorporam agora fitas coloridas reaproveitadas de paletes, uma solução encontrada para contornar a escassez do vime.
“Foi a alternativa que arranjámos. Não há material para trabalhar”, explicou.
Apesar das dificuldades, continua a receber encomendas e a encontrar quem valorize as peças produzidas à mão. Mais do que vender, disse que gosta de recordar uma tradição que faz parte da identidade da terra e da região.
Autarquia com boas expectativas
A valorização do artesanato local é sempre uma das apostas de cada edição da Feira de Artesanato e Gastronomia da Batalha.
Segundo o presidente do município, André Sousa, a organização optou por concentrar-se nos artesãos do concelho e na promoção das tradições locais. “A parte do artesanato é muito importante. Este ano, por questões financeiras, não conseguimos alargar o artesanato a todo o país e decidimos focar-nos no artesanato local, naquele que é mais do concelho da Batalha e tentar também promover as tradições antigas do nosso concelho”, explicou.
A par do artesanato, a gastronomia e o movimento associativo continuam a assumir um papel central no certame. André Sousa destacou ainda a aposta no envolvimento das escolas e das crianças, com atividades distribuídas ao longo do dia para atrair visitantes para além do período noturno.
Habitualmente, a Fiaba recebe entre duas e três mil pessoas por dia, mas André Sousa acredita que as alterações introduzidas este ano poderão atrair ainda mais visitantes. “A renovação deste modelo vai criar expectativas nas pessoas e acredito que possamos ter um maior número de pessoas do que nas edições anteriores”, referiu.
Já durante a inauguração oficial do evento, o autarca reconheceu que o modelo deste ano é mais compacto, mas mais acolhedor. “Tentámos tornar esta envolvente mais próxima das pessoas e das coletividades, porque o principal motor da Fiaba sempre foram as coletividades”, afirmou, lembrando que muitas associações dependem destes eventos para garantir uma parte importante do financiamento anual.








