
“Estamos francamente pior e mais perto de outra tragédia semelhante”
Passam hoje nove anos desde que o incêndio de Pedrógão Grande ceifou a vida a 66 pessoas, deixando um rasto de destruição inigualável, entre habitações, empresas e mancha florestal. Um momento trágico na vida coletiva do país que Miguel Manso e a sua família quiseram assinalar ontem, junto ao Memorial em Homenagem às Vítimas dos Incêndios Florestais.
Também Miguel Manso viu as chamas chegarem à sua aldeia, em Vale do Pereiro, no concelho da Sertã. Estar esta terça-feira junto ao memorial serviu, não só para lembrar as vítimas como para “sinalizar o facto de o território estar parado durante nove anos”. “Não estamos melhor, estamos francamente pior e mais perto de outra tragédia semelhante”, constatou Miguel Manso, dando como exemplo o eucaliptal que atualmente envolve o memorial em homenagem às vítimas.
A culpa, concluiu, prende-se com “a escolha dos políticos” e das políticas públicas, que continuam a fazer aumentar a mancha de eucaliptos num país pequeno como Portugal. “Como é que um país pequeno como o nosso tem 10 por cento do território entregue a uma só árvore”, questionou Miguel Manso, lamentando o abandono a que o interior do país foi dotado.
Para Miguel Manso e a família, “a organização popular faz sempre a diferença”, defendendo, por isso, uma tomada de posição da comunidade para travar a proliferação de eucaliptos em territórios como os distritos de Leiria e Castelo Branco, do qual pertence o concelho da Sertã.
De facto, uma visita por estes dias aos concelhos do interior norte do distrito de Leiria afetados pelos incêndios de há nove anos revela um quadro só possível de imaginar antes de 2017.
A mancha florestal de eucaliptos voltou a instalar-se no território do Pinhal Interior Norte. Nove anos depois, os eucaliptos mantêm-se como predominantes. Nalgumas zonas, são acompanhados por outras espécies autóctones, revelando o esforço de municípios e população em contrariar a tendência. Passar por algumas estradas secundárias é como recuar no tempo, quando a vegetação rasteira, seca e a crescer de forma descontrolada, fazia antever uma tragédia que acabou por acontecer. Com a agravante de que há zonas onde existem muitas árvores tombadas devido à passagem da depressão Kristin, em janeiro deste ano, que podem servir de rastilho.
Isso mesmo constatou Carlos Oliveira, de Leiria, que ontem passou por Pedrógão Grande e criticou o abandono do território, no qual inclui o Memorial em Homenagem às Vítimas dos Incêndios Florestais.
“É um memorial do esquecimento”, lamentou, considerando que as vítimas cujos nomes estão inscritos no memorial “mereciam mais do que estão a fazer”.
Poucas zonas ainda revelam vestígios da passagem das chamas, como em Valinha Fontinha, onde permanece maquinaria pesada, destruída pelo fogo e que nunca foi retirada junto à estrada.
No Memorial em Homenagem às Vítimas dos Incêndios Florestais, inaugurado em 2023, e onde hoje decorre uma homenagem, a depressão Kristin provocou “o colapso de todo o sistema elétrico e de bombagem associado ao memorial, deixando o sistema de abastecimento de água inoperacional”.
Segundo esclareceu a CIMRL ao nosso jornal, encontram-se em curso os trabalhos de reparação e reposição das infraestruturas afetadas. Em paralelo, “está também a ser executado um furo adicional de captação de água para reforço e suporte do sistema”, com o objetivo de aumentar a sua resiliência futura.
Segundo a Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria, trata-se de um investimento global associado a estas intervenções que ascende a cerca de 57 mil euros. As obras deverão terminar “nos próximos 30 a 45 dias”.
O incêndio que eclodiu no dia 17 de junho de 2017, em Escalos Fundeiros, no concelho de Pedrógão Grande, provocou a morte a 66 pessoas, e ferimentos em 253, sete dos quais graves. Para além da floresta, as chamas destruíram ainda meio milhar de casas e 50 empresas.









