
Chuva dá esperança a socorristas mexicanos depois das 72 horas 'críticas'
A chuva na madrugada de terça-feira deu alento aos socorristas que seis dias após os sismos que devastaram Catia La Mar procuram sobreviventes, já que a desidratação é o principal problema depois das 72 horas 'críticas'.
Alejandro Méndez tem 45 anos, é natural da Cidade do México, e nos últimos 22 trabalhou como socorrista. A vocação e “o exemplo” vêm da família: “o meu tio é o 'El Chino' e desde criança que ouvia as suas histórias, considero que isto é uma herança de família.”
Hector Méndez, conhecido como “El Chino” ou o “Topo Mayor”, é o socorrista mais famoso do México e foi o criador da brigada dos Topos Aztecas, uma equipa de voluntários especializados em resgates de vítimas de terramotos. O grupo foi criado depois do sismo de 1985 que dizimou a Cidade do México e, desde então, os Topos participaram em todas as operações depois dos sismos mais devastadores, incluindo na Turquia e na Síria, em 2023.
Falar dos Topos em Catia La Mar dá esperança à população. A Lusa ouviu de vários moradores que os Topos “são os melhores” nestas operações e “conseguem tudo a partir do bolso deles”, uma vez que as viagens e o equipamento são comprados com donativos e o próprio dinheiro dos elementos da brigada.
Seguindo o caminho trilhado pelo tio, Alejandro Méndez, que conversou com a Lusa sentado à sombra de uma tenda, para descansar “uns minutos”, seguiu com mais seis socorristas mexicanos para La Guaira um dia depois dos sismos de 24 de junho.
“Sabíamos que aqui era onde tínhamos de estar”, disse Alejandro, considerando que a situação é dramática, mas há semelhanças com outras catástrofes: “Nestas circunstâncias, há sempre muita desorganização, é inevitável.”
Mas o socorrista acrescentou que é preciso compreender as pessoas e ser paciente: “Não podemos esquecer que estas pessoas perderam familiares, não têm cabeça para pensar em mais nada, só os querem encontrar. E a parte mais importante da nossa ajuda é tentar chegar a todos os lados.”
Sobre as operações de resgate em La Guaira, o 'chilango' (expressão utilizada para descrever os cidadãos da Cidade do México) considerou que “o pior é o calor, dificulta muito as operações”.
Passaram seis dias desde que a Venezuela foi sacudida por dois terramotos em menos de dois minutos: o primeiro com uma magnitude de 7,2 na escala de Richter, o segundo de 7,5, de acordo com a informação agregada de vários serviços de monitorização geológica.
Depois das 72 horas iniciais, o chamado 'período crítico', a probabilidade de encontrar pessoas com vida diminui drasticamente.
Mas a experiência dá lugar à esperança, segundo Alejandro Méndez.
“De acordo com a minha experiência, acho que ainda há possibilidades de encontrar pessoas. Ontem à noite [madrugada de terça-feira] houve uma tempestade e choveu muito. Isso é bom porque refresca as pessoas que podem estar soterradas, muitas pessoas morrem de desidratação e isto pode ajudar”, explicou o socorrista, enquanto vai limpando o suor no rosto que se mistura com o pó que impregna o ar.
Infelizmente, em Catia La Mar este grupo de socorristas ainda não encontrou pessoas com vida. O terreno é de difícil acesso, parte dos edifícios que ruíram estão construídos no areal, pelo que uma réplica ou até um movimento em falso pode piorar uma missão de resgate.
O tempo urge, mas é preciso saber que 'chão se vai pisar'.
“Precisamos de controlar as emoções, não deixámos de ser humanos, mas aqui temos de ser o mais profissionais possível, a vida das pessoas depende disso”, advogou Alejandro.
Não têm data de regresso ao México, vão ficar em Catia La Mar “até que já não haja mais por onde ajudar”.
“Viemos pelos nossos próprios meios, conseguimos comprar um 'drone' com câmaras térmicas e isso está a ajudar também”, revelou.
Alejandro Méndez diz que ninguém estorva: “Quantos mais vierem, melhor, há sempre coisas para fazer, aqui todas as mãos contam.”
A pausa foi curta, Alejandro e a equipa apressaram-se. “Vamos começar a cobrir aquela área, ali ainda não foi nenhuma equipa, oxalá tenhamos sorte”, disse, apontando para o que outrora foi uma área residencial.
A equipa recolhe o equipamento, tomam um último gole de água, guardam as garrafas, pegam em tudo e seguem, entre os escombros rumo a mais uma missão, esperando que desta vez o resultado seja razão para sorrir.






